Carregando...
Artigos

Epílogo: Visões do Apocalipse

Nota: eu não pretendia escrever mais sobre Death Stranding depois de ter postado uma trilogia de artigos e uma entrevista, mas cá estamos. ¯\_(ツ)_/¯

Pós-apocalipse.

Após mais de 500 HORAS1 jogando Death Stranding2, esse termo que a gente usa pra definir obras ambientadas em mundos acometidos por eventos cataclísmicos ficou martelando na minha cabeça.

O décimo quinto capítulo — O Amanhã Está Em Suas Mãos — é um epílogo que nos permite continuar jogando indefinidamente; Death Stranding não termina porque o mundo do jogo também não acaba. Quase tudo muda radicalmente após o cataclismo que destruiu os Estados Unidos da América, menos o básico da vida humana. A população que sobrou vai se adaptando às novas condições climáticas e de infraestrutura, às novas maneiras de se comunicar e de se relacionar, porém, todos precisam continuar suprindo as mesmas necessidades físicas e emocionais que o Homo sapiens tem desde que emergiu enquanto espécie neste planeta.

A ficção especulativa nos acostumou a relacionar apocalipse a um fim, e pós-apocalipse a um pós-fim, como se o recomeço de uma sociedade se desse a partir de um evento pontual de ruptura; contudo, o termo apocalipse (do grego apokálypsis) não significa originalmente fim, mas revelação. Embora ocorra uma série de cataclismos muito loucos no próprio Apocalipse bíblico, ele não é exatamente sobre o fim do mundo, mas um livro de revelações divinas.

Acontece que os Homo sapiens (aqueles que acham que sabem) são meio tontos e nem sempre conseguem perceber a tempo que estão trilhando rumos perigosos até passarem não por um, mas por vários pontos de ruptura. O apocalipse é o contínuo de revelações que ocorrem paralelamente a essas rupturas e que vai expandindo a percepção da natureza de tudo.

Matutando sobre isso, me ocorreu que Death Stranding não é pós-apocalíptico; é um jogo apocalíptico.

Não é sobre evitar um apocalipse; não é sobre lutar contra poderosos que se aproveitaram de um apocalipse pra oprimir ainda mais quem já era oprimido antes; não é sobre descobrir que num pós-apocalipse a humanidade retornaria a um estado de tribalismo incivilizado em que sobrevivência e violência não só rimam como são sinônimos.

Jogar Death Stranding é tão-somente viver um apocalipse.

Porque nele o mundo não vai acabar tão cedo, e nem será possível salvá-lo quando de fato chegar o seu fim, mas a percepção da natureza da vida é descortinada irreversivelmente.

O tal Amanhã é uma realidade em comum que precisará ser ressignificada e reconstruída continuamente por milhões de formiguinhas cósmicas trabalhando juntas. Algumas logo captam as revelações do apocalipse sobre esse Amanhã que está em suas mãos; outras demoram mais tempo (ou resistem mais) pra compreender.

Do nosso ponto de vista somos uma árvore: um Sam qualquer continuando a viver o apocalipse sem muito propósito, contribuindo da maneira que pode mais por falta de opção. (Lembrando que ele não acredita no sonho do Reconstrucionismo Americano e aceita embarcar na missão da Amelie por livre e espontânea pressão.)

Do ponto de vista da Amelie, de sua praia, ela enxerga a floresta: milhões de Sams que, instintivamente, sentem a insignificância de suas breves existências perante a infinitude do cosmos e que ainda assim, intuitivamente, acreditam que não importa haver ou não significados intrínsecos a existir se podem criá-los enquanto existem; Sams que, contraditoriamente, diante das piores condições, têm reforçada a sua crença de que vale a pena continuar existindo e construindo significados durante o tempo em que puderem perdurar; Sams que, acima de tudo, descobrem o melhor de existir e significar fazendo-o em conjunto. Amelie viu beleza o suficiente nisto pra fazê-la mudar de ideia e delongar o sexto Evento de Extinção3. Quem sabe, com mais tempo, os/as Sam que retiraram as traves de seus olhos consigam ajudar outros tantos Sam que perderam a fé em si mesmos e na humanidade a tirar os argueiros dos olhos deles.4

HISTÓRIA COM SPOILER

Durante o mês de junho comemora-se nos EUA a emancipação da população negra.

O dia 19 de Junho, em especial, batizado de Juneteenth (June + nineteenth) e também conhecido como Dia da Liberdade ou Dia do Jubileu, marca a data da liberação dos últimos escravizados no estado do Texas — dois anos e meio depois do presidente Lincoln ter assinado a proclamação que abolira formalmente a escravidão durante a Guerra Civil americana. O fim da escravidão não significou o fim da opressão sistemática aos libertos e a seus descendentes, o que reverbera socialmente até hoje5. Portanto, as celebrações sempre andaram juntas com as lutas por igualdade de direitos civis, justiça e antirracismo, e neste ano especificamente, a comemoração foi encorpada pela onda de protestos iniciada pelo movimento Black Lives Matter após a morte cruel de George Floyd. A comunidade afro-americana também luta pra tornar o Juneteenth, que já é oficial em alguns estados, num feriado nacional.6

No apocalipse de Death Stranding, o cataclismo causou rupturas drásticas na sociedade. Ao contrário da presidente Bridget, Die-Hardman7 sabia que, mais do que reconstrução, o país precisava de transformação social. O design da bandeira da UCA8 foi pensado por ele como forma de não levar adiante o legado do colonialismo.9

Bridget e eu tivemos discussões sobre a bandeira da UCA. Ela queria algo baseado no antigo design americano. Você sabe qual. Cinquenta estrelas e treze listras — estados e colônias. Um símbolo clássico de orgulho nacional. A presidente queria que as pessoas se lembrassem daquele orgulho enquanto seguíamos em nosso processo de reconstrução, mas eu pensava diferente. A antiga bandeira americana foi redesenhada vinte e seis vezes. Toda vez que um novo estado se juntava à união, eles tinham que adicionar outra estrela. Era fácil acreditar que o país continuaria crescendo para sempre, que acabaria tomando o mundo inteiro. A maioria das pessoas acreditava nisso. O bom e velho Destino Manifesto — o mantra usado para justificar incontáveis atrocidades séculos atrás. Pode acreditar que eu falei à presidente que não deveríamos carregar esse legado em particular. Liberdade, igualdade, fraternidade — tais princípios devem ser consagrados e nunca negados. As estrelas da UCA não são estados, mas indivíduos. Cada um com valor, cada um parte do todo. É isto que a nossa bandeira — e a UCA — representa.

(Tradução livre.)

Tinha pouco mais de 150 mil likes quando tirei essa screenshot; hoje tenho quase 700 mil. #socorro

REGISTROS DO APOCALIPSE

Segue uma avalanche de imagens apocalípticas feitas no Photo Mode de Death Stranding.10

Não poderia abrir a galeria de outra forma: essa cena do final do jogo simplesmente me destruiu. É uma das imagens mais belas que eu já vi em qualquer obra audiovisual. Como se os espíritos dos outros BBs que não tiveram a mesma sorte da Lou — foram friamente usados e descartados — viessem celebrar a oportunidade de vida que ela ganhou através de sua conexão com o Sam.11

A dancinha feliz quando a gente toca a gaita pra Lou. (^_^)
Cavaleiro de Ouro da Constelação Delivery: entregas à velocidade da luz.
[Order Nº 01] Entregar a reencarnação da deusa Atena aos cuidados dum empresário japonês.
Soul of Gold

Tirar aquela soneca depois de um dia cheio de trabalho não tem preço. (Preferível fazer isso dentro de casa, não em cima da mesma, mas tudo bem.)

Iti malia que soninho.
Sam nada pra fazer em casa na quarentena.
Passar a quarentena na casa do Heartman não seria má ideia.

Um detalhe bobo que adiciona muito à narrativa: os BTs agradecem com likes por serem ajudados a fazer “a passagem” quando cortamos seus cordões umbilicais espirituais.

Falando em BTs… R.I.P. The Elder. T_T

Sdds daquilo que nunca chegou a ser… P.T./Silent Hills. (Meu Porter Grade atual é 370. #socorro)
Esperando a Maria vir do além abrir a porta do Heaven’s Night.
War has changed… mas ao mesmo tempo never changes.

♪♫ Born to be wiiiiild !! ♫♪
♪♫ Andei, andei, andeeei até encontraaar… ♫♪

Uma tragédia em três atos: tentativas de tirar uma foto ~radical~ na rodovia perto do laboratório da Mama. O veículo ficou pendurado desse jeito durante uns 30 minutos enquanto eu fazia altas manobras mirabolantes pra voltar à pista. QUASE CONSIGO, mas a física do jogo acabou me vencendo.

Simbolismo visual: os Centros de Distribuição da Bridges lembram caravelas.
<3 NPCs com olhar de vazio existencial. <3
Flw, galerinha, até a próxima.
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *