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Sobre bruxos e feiticeiras | The Witcher Saga

O seriado de The Witcher que estreou na Netflix em dezembro passado foi uma grata surpresa. No saldo geral, a aceitação parece ter sido positiva (mesmo com ressalvas) tanto entre fãs dos livros quanto dos jogos, além de ter conquistado uma audiência considerável entre o público que nunca havia tido contato com os materiais anteriores.  

Era certo que a adaptação para a TV traria elementos estéticos e narrativos inspirados nos jogos, dada a importância da CD Projekt Red na popularização da obra do escritor Andrzej Sapkowski fora de seu país tornando-a um fenômeno transmidiático mundial. Contudo, os produtores da Netflix não mentiram ao frisar que o enredo seria baseado primordialmente nos livros — e este artigo é sobre eles.

Muitos dos hoje milhões de fãs de Geralt de Rivia tiveram acesso ao seu universo através dos jogos, e eu me encaixava neste grupo até 2017, quando resolvi maratonar os livros de The Witcher. Maratonar mesmo: fiquei tão absorvida pela história que devorei todos em uma semana.1 À época, após zerar os livros, comentei as minhas impressões com a galera nos grupos de Facebook do GoW e do BaixoFrenteSoco sem muita pretensão; agora, achei válido organizar aqueles comentários num artigo para incentivar os curiosos sobre a obra original a mergulhar de cabeça na imaginação do véio polaco, ou pelo menos ajudar a situá-los sobre o que acontece antes da franquia da publisher polonesa.

A primeira temporada do seriado foi uma colcha de retalhos de eventos dos contos, costurados de maneira a introduzir a correlação entre Geralt, Ciri e Yennefer, ou seja, como os caminhos deles se cruzaram e por que seus destinos se entrelaçaram. Demora alguns episódios para o roteiro, que se desenrola em três linhas temporais, começar a fazer sentido, mas nada muito mirabolante que não dê para sacar o fio condutor de todas as tramas ali pela metade. Chuto que a segunda temporada será mais linear, engatando o arco narrativo maior que se desenvolve nos cinco romances principais da Witcher Saga. Falarei um pouco sobre estes e como se relacionam com os jogos, então dê um trocado para o seu bruxo2 e vamos nessa.

A cronologia da obra do Tio Sapo, em ordem de publicação, é a seguinte:

The Last Wish (1993)

Coletânea de sete contos. O livro foi lançado depois de Sword of Destiny (abaixo), mas ele contém as primeiras histórias do Geralt que Sapkowski publicara na revista polonesa de ficção especulativa Fantastyka, então considerem como o marco zero desse universo. O primeiro conto é Wiedźmin (Witcher), de 1986, com o qual o autor levara o terceiro lugar numa competição literária promovida por aquela revista.

É no conto homônimo ao livro que descobrimos a origem da relação do Geralt com a Yennefer e sobre como os fios dos seus destinos foram entrelaçados por um “último desejo” do bruxo a um gênio.

Sword of Destiny (1992)

Coletânea de seis contos. No conto homônimo conhecemos a Ciri, e alguns eventos deste livro servem de prequel aos romances. (Tanto as histórias de The Last Wish quanto as de Sword of Destiny ocorrem antes dos romances.) O conto A Shard of Ice é um dos meus favoritos dentre tudo o que Sapkowski escreveu; aqui começamos a entender melhor a psique da Yennefer e como a sua armadura emocional complica a relação com o Geralt.

Witcher Saga (1994 a 1999)

Com o sucesso dos contos, Sapkowski resolveu escrever uma série de romances desenvolvendo um arco narrativo maior. Aqui temos cinco livros (cada um sendo a continuação direta do anterior) que contam a história da Ciri, dos que a perseguem por conta de seu sangue mágico e de Geralt e Yennefer tentando proteger sua filha postiça — tudo isto enquanto rolam as guerras do Império de Nilfgaard contra os reinos ao norte do Continente.

Na ordem: Blood of Elves (1994), Time of Contempt (1995), Baptism of Fire (1996), The Tower of Swallows (1997) e Lady of The Lake (1999). As datas são das publicações originais em polonês e os títulos eu deixei em inglês porque são as versões que tenho, mas tanto as coletâneas anteriores como os livros da saga foram traduzidos para o português.

Something Ends, Something Begins (2000) e A Road with No Return (2000)

Duas histórias de The Witcher presentes numa coletânea de contos aleatórios do Sapkowski. A primeira é um spin-off em que Geralt e Yennefer se casam, escrita como um presente de matrimônio para um casal de amigos do autor.3

Creio que ambas só saíram em polonês, mas existem traduções de fãs (inglês aqui, português aqui) da primeira; da segunda, que é sobre os pais do Geralt, não achei tradução. Se alguém souber de outras traduções, oficiais ou não, avisa nos comentários.

Season of Storms (2013)

Um romance que funciona como prelúdio da Witcher Saga, ambientado antes dos eventos de Wiedźmin, aquele primeiro conto do Sapkowski. A edição em inglês foi publicada em maio de 2018, a versão em português saiu em abril de 2019 e a versão que eu li foi uma tradução de fãs bem digna.

 

Não é fácil ser Bruxão

 
Em parte, talvez, por herança dos contos que a originaram, no sentido de Sapkowski ter carregado hábitos de quem se especializa em compactar mundos expansivos em narrativas curtas, os romances da Witcher Saga possuem enredos mais fragmentados e emoldurados4 do que lineares. Com o centro narrativo fixo em Geralt, Ciri e Yennefer, o autor desenvolve em círculos concêntricos diversos eventos das guerras que tomaram o Continente que suas personagens habitam, contextualizando seu universo a conta-gotas. Não há uma estrutura formal em que os pontos de vista de cada personagem importante ganham capítulos próprios; os plots aqui são como elétrons saltando entre as camadas do texto enquanto orbitam em torno do núcleo atômico Ciri5, em quem se concentra o peso da história.

Muitas coisas são contadas indiretamente através de diálogos entre personagens secundários, figurantes que aparecem como instrumentos expositivos e desaparecem ou introspecções dos protagonistas. Pode-se dizer que aprendemos mais sobre esse universo pelas impressões de seus habitantes do que por passagens descritivas do narrador onisciente. Sapkowski gosta de deixar que seus personagens falem por si.

Gosto bastante desse tipo de storytelling em que os diversos fragmentos dão colorido ao mundo em volta dos personagens, mostrando de maneira mais panorâmica como as suas decisões (e consequentes ações) ao mesmo tempo moldam e são influenciadas pelo contexto em que vivem. Geralt é o nosso guia para o Continente, porém, dentro do próprio, há toda uma tapeçaria de histórias tecendo um folclore maior que se estende por gerações. Devo ressaltar, contudo, que nem sempre o autor consegue manter o controle do ritmo narrativo. Às vezes ele se demora em alguns pontos não muito relevantes à trama principal, e outros que acrescentariam à mesma são rapidamente esquecidos desperdiçando ótimas oportunidades de worldbuilding.

[Em termos de worldbuilding, construção de mundo, os jogos levam vantagem por sua natureza interativa, permitindo a exploração do Continente detalhadamente construído e expandido pela imaginação dos designers da CD Projekt Red.]

Outro problema é que às vezes você se perde um pouco nas transições e precisar voltar alguns parágrafos para assimilar direito uma sequência de ações, para entender um salto temporal ou para se certificar de qual interlocutor tomou o diálogo, mas nada tão confuso que te faça não conseguir retomar o rumo do texto rapidamente. Acredito que parte desses problemas se deva ao fato de muitas nuances da língua polonesa terem inevitavelmente se perdido na tradução.

Voltando à natureza fragmentada dos livros, a cada desvio do trio de protagonistas a narrativa se lança a lugares onde estão ocorrendo batalhas ou politicagens que irão influenciá-los de alguma forma, atualizando assim o enredo maior de maneira concomitante. Em alguns dos desvios eu me senti meio que lendo uma HQ, até encaixando mentalmente uns advérbios de tempo aqui e acolá. Enquanto isso, na reunião do Lodge of Sorceresses no castelo de Montecalvo…

Inclusive, pela forma como o texto nos conduz a imaginar as cenas, eu cheguei a pensar “esse velho cresceu lendo quadrinhos”, porque muitas parecem elaboradas como um storyboard. Talvez seja uma impressão pessoal, mas, enquanto eu lia, as imagens se formavam na minha mente em painéis, diferentemente de como eu leio Tolkien (um autor muito mais descritivo) visualizando as cenas como sequências de um filme.6 No entanto, considerando a opinião pouco simpatizante do véio polaco sobre a capacidade de storytelling dos jogos — o que o fez vender seus direitos autorais para a CD Projekt Red por um cachê modesto achando que videogame não daria dinheiro e se arrepender visto o sucesso financeiro inesperado da franquia, entrando numa batalha judicial para receber royalties retroativos que, felizmente, terminou em 2019 num acordo favorável a ambos os lados —, desconfio que ele também não seja muito fã de quadrinhos.

Resumindo: eu diria que o Tio Sapo é mais pragmático do que Tolkien, o que não surpreende vindo de um economista que virou tradutor e começou sua carreira de autor publicando “histórias curtas” em revistas. Sua escrita é mais esperta e espirituosa do que acadêmica e rebuscada. Que fique claro que o objetivo desta comparação não é fazer juízo de valor, apenas apontar as diferenças de estilo para uma melhor compreensão. É bem tentador analisar The Witcher em relação a O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Gelo e Fogo, que podem ser considerados os maiores pilares culturais do gênero high fantasy atualmente, tanto na literatura quanto no audiovisual, mas são obras estilisticamente muito distintas entre si e melhor apreciadas sem ceder à tentação de avaliá-las comparativamente.

[alguns SPOILERS a partir daqui]

Bem, como nos jogos, enquanto o Geralt viaja pelo Continente pegando uns witcher-freelas ou procurando a Ciri, Sapkowski vai costurando a narrativa com vislumbres de guerra, às vezes nos pegando de surpresa com cenas bem gráficas (como quando Yen e Ciri estão a caminho da escola de magia e se deparam com corpos dilacerados pendurados ao longo da estrada) mas incidentais à ação do momento, noutras envolvendo o bruxo diretamente — e muito a contragosto — nos conflitos entre os reinos e intrigas dos magos e feiticeiras.

Geraldo só quer seguir seu caminho de witcher-isentão em paz, pois detesta politicagens com fervo, mas é impossível não se meter em confusão quando você se envolve com Yennefer de Vengerberg: a mulher é tão poderosa — admirada, odiada e invejada na mesma proporção — e bem conectada socialmente que, mesmo quando ela não está a fim de tomar partido, acaba sendo ímã de tretas. Atrair tretas, aliás, parece ser uma sina inescapável às mulheres independentes, de opiniões e atitudes fortes nesse mundo.

Uma treta colossal ocorre na noite de abertura de uma conferência de magos e feiticeiras na Ilha de Thanedd7, onde fica a escola de magia em que a Ciri iria estudar; ali, a magaiada decidiria sobre suas alianças durante a segunda guerra nilfgaardiana. Geralt e Yen tinham acabado de se reconciliar e o bruxo estava tão serelepe que aceitou acompanhar a namorada ao banquete mesmo não suportando as falsidades disfarçadas de etiqueta deste tipo de evento social. Esta é, com folga, uma das melhores passagens de todos os livros: além de ser quase palpável o clima DENSO encoberto pela pompa e cortesia, é impossível não se divertir com o Geralt se achando por estar com a mulher mais desejada do baile enquanto a Yen se morde de ciúmes pelas notáveis reações que o bruxo provoca em suas colegas.

Pena que alegria de witcher dura pouco, e durante a madrugada (após o banquete; após o casal se retirar aos seus aposentos; após uma pegação épica de acodar a vizinhança com os gritos extasiados da Yen) estoura um golpe pró-Nilfgaard liderado por Vilgefortz de Häagen-Dazs (nunca decoro o sobrenome deste fdp) seguido do maior quebra-pau entre magos e feiticeiras divididos em #TeamNilfgaard e #TeamReinosDoNorte. Não somente em Game of Thrones que O Norte se lembra, e nesta guerra alguns dos reinos nortistas conseguem chutar a bunda nilfgaardiana e manter sua independência firmando tratados de paz.

O ardiloso Vilgefortz de Hopi-Hari só fingia trabalhar para Nilfgaard enquanto buscava um jeito de capturar a Ciri para usar o poder de seu Elder Blood. Entretanto, durante a confusão na conferência da magia, a garota consegue fugir através de um portal na torre mais alta da Ilha de Thanedd e, a partir daí, começam suas aventuras solo e viagens entre dimensões até chegar ao mundo dos elfos Aen Elle onde, só para variar, querem sugar seu sangue. O que torna o sangue da Ciri especial (e lhe confere poderes cósmicos e fenomenais + a sina de ser perseguida por gente que deseja possui-los) é sua descendência da mítica feiticeira Lara Dorren, uma elfa Aen Elle que fulecou com um mago humano.

No último livro, Avallac’h e Eredin (aquele mesmo do jogo, o Rei do Wild Hunt, que eu desconfio que seja o Rei-Bruxo de Angmar pegando um job noutra mitologia após ter se aposentado d’O Senhor dos Anéis), os manipuladores que mandam no pedaço, tramam para convencer a Ciri de que ela precisa fornecer um herdeiro ao rei dos Aen Elle, como se sua condição de descendente da Lara lhe impusesse tal obrigação moral, e que eles a deixarão ir embora após dar à luz. Nem preciso dizer que esta empreitada não dá muito certo. Eredin descola até um Viagra mágico para o rei, mas o coitado morre. Será que o coração do monarca não aguentou o poder do afrodisíaco? Ou será que ele foi envenenado pelo Eredin? A dúvida fica sem resposta.

Depois do clímax dos livros em que Geralt encontra Ciri e Yennefer e os três finalmente derrotam Vilgefortz de Hellmann’s e seus comparsas, Emhyr, o imperador de Nilfgaard, chega ao local com seu exército e prende a Ciri… mas numa virada de consciência aos 45 do segundo tempo decide deixar sua filha em paz! O foco, então, é direcionado para (e passa várias páginas atualizando o leitor sobre) o aftermath da guerra e as delicadas negociações de paz entre o império sulista e os reinos do norte que não caíram.

É neste ponto que a narrativa dos jogos converge com a dos livros (a intro de The Witcher 3 engata exatamente de onde Geralt e Yen terminam no último romance, na Ilha de Avalon), com certas mudanças e desvios necessários à adaptação. Os eventos dos jogos, que culminam numa terceira guerra de Nilfgaard, agora contra Redania, acontecem depois dos eventos dos livros e por consequência destes, apesar do Sapkowski não curtir muito que consideremos os jogos como uma continuação (ainda que alternativa) da história do Geralt. Bem no estilo “se eu não escrevi, não entra no canon“.

Emhyr é um Pacman Imperialista insaciável que deseja engolir todo o Continente. Ele contrata Letho e seu bando de witchers renegados (os “Assassins of Kings” do segundo jogo) para se livrar dos reis do norte e abrir caminho para a sua conquista total, prometendo conceder uma terra para os bruxos viverem em paz. (Promessa vazia.) Em The Witcher 2, Letho se lembra de que Geralt já salvara sua vida anteriormente, decide poupá-lo e ir embora. O jogador pode continuar lutando ou deixar quieto; escolhendo a segunda opção, Letho pode retornar como parça no terceiro jogo (para o desgosto e desconfiança de outros personagens) e ajudar nas batalhas contra o Wild Hunt. Ciri continua viajando em altas aventuras interdimensionais e Emhyr quer reaver a filha — para se casar com ela e gerar incestuosamente um herdeiro, na trama do último livro; ou para instaurá-la como sua sucessora, na trama de The Witcher 3. O imperador pede ajuda (com o jeitinho meigo típico dos tiranos) a Geralt e Yennefer, que só aceitam colaborar por estarem desesperados para reencontrar a Ciri. A partir daí se desenrola o enredo do terceiro jogo.

Um aspecto muito interessante nos jogos de The Witcher foi como os roteiristas da CD Projekt Red concretizaram foreshadows dos livros. Por exemplo, na saga o futuro rei de Redania, Radovid V, é apenas uma criança; nos jogos ele volta adulto querendo se vingar de Philippa, a feiticeira que efetivamente dominava o reino com sua influência sobre o antigo rei. Saca este trecho numa celebração do fim da segunda guerra nilfgaardiana, a semente do ressentimento começando a germinar na mente do pequeno Radovid que ainda seria muito humilhado pela Philippa (então regente) antes de atingir a maioridade e assumir seu trono:

Ninguém grita, “Vida longa a Radovid”, pensou o príncipe. […] Ninguém nem olha para mim. Ninguém grita em honra de minha mãe. Ninguém se lembra de meu pobre pai. Mesmo hoje, neste dia triunfal que ele fez por merecer. Afinal, foi por isto que o assassinaram. 

Ele sentiu um olhar em seu pescoço. Delicado como alguém que ele não conhecia — ou conhecia, mas apenas em sonhos. Algo suave como o roçar dos lábios quentes de uma mulher. Ele virou a cabeça. Ele descobriu os olhos escuros e insondáveis de Philippa Eilhart fixados em si. […]

Ninguém poderia prever ou adivinhar, então, que aquele garoto de treze anos, que à época era uma pessoa sem qualquer relevância em um país governado pelo Conselho de Regência e por Dijkstra, tornaria-se rei. Um rei que, após liquidar todos os insultos que haviam sido dados à sua mãe e a ele, entraria para a história com o nome de Radovid, o Severo.

[Tradução livre.]

Em The Witcher 2, veja o que aconteceu a ela. Em The Witcher 3, Philippa volta para se vingar do Radovid. Um ciclo vicioso de ódio e vingança estendido dos livros aos jogos.

[fim dos SPOILERS, continue lendo]

Como Sapkowski não é ultradetalhista, os jogos (especialmente o terceiro) cumprem muito bem a função de expandir a construção de mundo dos livros. No universo virtual projetado pela CD Projekt Red o Continente ganha muita substância e nos permite testemunhar e/ou participar de coisas que no texto original seriam apenas sugeridas.

Enquanto cavalgamos por aí com Roach, passamos por campos de refugiados; cidades invadidas, arrasadas e saqueadas; noutras o cotidiano segue normal e o comércio continua funcionando; em certos lugares há negociações de rendição acontecendo; nas academias de magia os alunos continuam estudando; as feiticeiras se reúnem para definir como irão influenciar seus reis e os novos rumos do Continente; às vezes o caminho de Geralt se cruza com os dos atores da guerra (Rience, Vilgefortz), mas onde sempre converge é com a jornada da Yennefer.

Em meio a tudo isso, a narrativa de The Witcher (em qualquer das mídias) nunca deixa de enfatizar a natureza cíclica da vida. Como diz a frase repetida ao longo do último romance: something ends, something begins (algo termina, algo começa). Por mais longa e sangrenta que seja qualquer guerra, eventualmente ela acabará, o que foi destruído será reconstruído e as pessoas aprenderão (por bem ou por mal) a se adaptar às suas novas condições.

 

A Verdade é Um Estilhaço de Gelo

 
De longe, a minha coisa favorita no universo de The Witcher é a relação do Geralt com a Yennefer. Afirmo com tranquilidade que eles formam um dos casais mais realistas já retratados em qualquer mídia. Ao invés de idealização romântica, há camadas aqui que só quem já teve relacionamentos turbulentos vai se identificar: as dores e as delícias de se apaixonar de corpo e alma mas não conseguir se entregar por inteiro. Não se sabe construir um amor leve quando se viveu traumas tão pesados, e a Yen, especialmente, carrega uma armadura emocional de chumbo. Eles não conseguem se manter em harmonia por muito tempo quando estão juntos, mas também não conseguem viver plenamente um sem o outro, então terminam e voltam diversas vezes tentando se afinar.

Numa entrevista para uma revista italiana, Sapkowski explicou sua mentalidade ao criar o casal:

Sendo um enorme fã de fantasia, às vezes eu acho enfadonhas ou repugnantes histórias em que o herói pode fazer sexo com qualquer mulher porque aquelas mulheres mal podem esperar para fazer sexo com ele. Nessas histórias as mulheres são o prêmio, a recompensa do herói, e como tal não têm nada a dizer, elas podem apenas gemer ou desmaiar nos braços fortes do herói. […] Eu tenho a convicção de que apenas com o contato com o outro sexo — seja por causa de atração, cuidado, confronto ou oposição — um herói pode evoluir completamente. Quando criei a personagem da Yennefer, eu queria que o Geralt evoluísse completamente, mas então decidi complicar as coisas. Eu criei uma personagem feminina que se recusa a ser um estereótipo da fantasia para agradar o leitor. A primeira coisa que eu fiz foi lutar contra os estereótipos: o típico herói que busca uma recompensa, salva o mundo e possui tudo o que todas as mulheres desejam de um homem. E eu mudei o mito, trata-se de um herói que diz “foda-se e não me incomode mais”. Colocar este herói em diferentes situações, como estar com uma mulher que também não obedece a esses estereótipos, pode ser muito difícil, mas também muito interessante.

[Tradução livre.]

A construção das personalidades do casal enquanto indivíduos também é muito naturalista. 

Por não ser um herói predestinado a salvar o mundo, Geralt não tem os privilégios nem a boa vontade de um; o bruxo é apenas um profissional tentando executar seus serviços da forma mais eficiente possível para quem sabe, no fim do dia, sobrar uma graninha para continuar sobrevivendo. Ao criar um protagonista que, em seu mundo, é visto apenas como mais um dos caras que fazem o trabalho sujo, do qual as pessoas dependem para resolver seus problemas e mesmo assim sentem preconceito por acreditarem que as mutações tornam os witchers menos humanos, o autor abriu um leque muito maior de possibilidades para explorar conflitos existenciais e morais do que um “Escolhido” geralmente permite.

Ser um pária social é um dos elementos mais definidores do caráter do Geralt. Embora, apesar de tentar disfarçar, ele nunca tenha perdido o compasso moral e a compaixão, sua experiência como bruxo frequentemente revela o pior lado do ser humano — como as pessoas muitas vezes são mais grotescas do que as criaturas que ele é contratado para eliminar — e isto lhe confere uma boa dose de cinismo em relação à humanidade e às convenções sociais. Mas o mais interessante é que Geralt não deixa esse cinismo evoluir para misantropia, o que traz à sua personalidade uma combinação irresistível de ceticismo com leveza. No mundo moralmente cinzento de The Witcher (cheio de opressão, racismo, sexismo, todo tipo de violência), as escolhas dos personagens ficam mais limitadas a optar pelo “menor dos males” (the lesser evil) do que entre o bem ou o mal, mas muito por conta das nuances contrastantes na personalidade de Geralt, exploradas com gosto na prosa bem-humorada do Sapkowski, o enredo da saga não segue o estilo grimdark para o qual alguns autores apelam achando que este automaticamente torna a literatura de fantasia mais adulta. 

Uma das passagens que melhor ilustram isso é quando Geralt e Yen passam a noite juntos na Ilha de Thanned e a feiticeira vê um sonho dele. O futuro ideal que Geralt imagina para os dois não poderia ser mais idílico e singelo: uma casinha em meio à natureza construída pelo próprio bruxo; os dois envelhecendo juntos, sustentando-se somente do que eles mesmos plantam; os dois já velhinhos recebendo visitas da Ciri com um marido e três filhos; Geralt tocando gaita de foles para alegrar a Yen quando ela fica entediada.

Em contrapartida ao deboísta que prefere aproveitar os pequenos prazeres da vida (beber na companhia de amigos em alguma taverna, passar uma noite prazerosa com alguma mulher interessante, ter um lugar decente para dormir) do que se envolver em politicagens, temos uma parceira totalmente pragmática e orientada à política, arrogante e intransigente, que tem sede de poder e se acha a dona da razão. Yennefer é uma personagem completa, com seus próprios interesses independentes do Geralt, e não um par romântico. Sapkowski inverte 180º a dinâmica do casal comum de fantasia: é Geralt quem segue os passos da companheira, que é a força motriz da narrativa de The Witcher tanto nos romances quanto na série quanto no último capítulo da trilogia da CD Projekt, onde ela finalmente aparece como a cabeça da Operação Resgate da Ciri.

Como a primeira temporada da série da Netflix foi uma introdução, essa dinâmica do casal, que só se juntou nos episódios finais, ainda não ficou estabelecida para quem os conheceu pela TV. Para quem leu os livros ou jogou The Witcher 3, contudo, é bem claro que Yen é a dominante na relação. Isto gera algumas situações desconcertantes em que o bruxo simplesmente desiste de argumentar e aceita o que a Yennefer fala/manda só para não arrumar briga. Ele sabe que não adianta rebater; cabeça dura que só ela, Yen sempre vai fazer as coisas do seu jeito. Tem uma cena em Kaer Morhen, no jogo, que é uma amostra perfeita disto. Yen precisa de alguns itens para realizar um feitiço e sai mandando em todo mundo: Geralt faça isso, Eskel faça aquilo, Lambert faça aquilo outro; Vesemir retruca que quem dá as ordens na fortaleza é ele e propõe outra forma de tentarem quebrar a maldição da criatura, Yennefer rebate com uma resposta sarcástica e Lambert diz para ela ter “um pouco de respeito, você não está falando com o Geralt” (por volta de 0:54 no vídeo abaixo) — OUCH. Não satisfeito, ele volta a alfinetar a ciumenta (no minuto 6:25) perguntando para o Geralt como anda a Triss.

Muita gente escolhe romancear a Triss no jogo porque acha a personalidade da Yen insuportável. Na vida real eu também não suportaria; na ficção acho interessante, por ser tão inusitado, observar numa protagonista o tipo de personalidade ácida geralmente reservado a antagonistas ou vilãs. Yennefer não é má, mas também não se pode dizer que há um coração de ouro por trás de sua fachada. A feiticeira não se furta em usar seus poderes, mentir e manipular para atingir seus objetivos, e não se arrepende se acabar prejudicando outras pessoas pelo caminho. Diferentemente de Geralt, que sim, esconde um coração amplamente compassivo, Yennefer só se importa com as poucas pessoas de quem realmente gosta, principalmente a Ciri, que ela busca proteger com a ferocidade de uma leoa-mãe.8

A série da Netflix dá bastante destaque ao porquê da Yennefer ser assim, mostrando seu passado de abusos e humilhações por conta de suas deformidades físicas, e como acabou sendo vendida pelo pai para a academia de feiticeiras por um valor menor do que os porcos que ela alimentava no curral da família. Sua vida em Aretuza continua dura, pois as alunas são obrigadas a seguir uma disciplina bastante rígida. Além disto, para alcançar todo o seu potencial mágico, Yen torna-se infértil, já que a magia no universo de The Witcher é regida pela Lei de Lavoisier — na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. As feiticeiras trocam a capacidade de gerar vida pelo poder de manipular as forças naturais. 

Nos livros, após a cena em que Yen tenta se matar cortando os pulsos, a diretora da academia, Tissaia de Vries, manda ela derramar todas as lágrimas que tivesse dentro de si naquele momento para nunca mais chorar porque “não há nada mais patético do que uma feiticeira chorando”. Yen internaliza esta frase como um mantra protetor e inclusive a repete para a Ciri anos mais tarde, em quem ela deposita o seu instinto maternal. Deste passado trágico vem o pavor de demostrar suas vulnerabilidades e consequente apego à sensação de poder. Geralt costuma reclamar que Yen não aceita críticas, é condescendente com os outros, não confia em ninguém e vive tramando para estar sempre um passo à frente de todos, mas o egoísmo dela é puro mecanismo de defesa.

Geralt: “Você poderia ser mais legal às vezes.”

Yennefer: “Suponho que sim. Mas então eu não seria a mulher por quem você se apaixonou, seria?”

[Os diálogos do casal em The Witcher 3 são impagáveis.]

No conto The Voice of Reason, que abre o primeiro livro de Sapkowski, The Last Wish, Geralt confessa que deu um perdido na feiticeira porque sua possessividade o estava sufocando. Quando os dois se reencontram e reatam mais tarde, Yen está mais reticente em relação ao bruxo porque acha que baixou demais a guarda na última vez em que estiveram juntos, deixando Geralt perceber a insegurança que alimentava a sua possessividade; ela não quer parecer fraca novamente diante do homem que ama e volta a vestir o manto da frieza. “Eu te dei tudo de mim, mostrei um lado meu que nunca havia mostrado a ninguém e você simplesmente virou as costas e foi embora”.

 

Traição, Romance, Amor e Lance

 

Você pode continuar lendo o texto ou resumir toda a parte de romance em The Witcher clicando nesta imagem. #brinks

Uma quebra de estereótipo interessante em The Witcher é que a Yen é quem impulsiona a energia sexual do casal. Sei que parece estranho dizer isto sendo que o Geralt é provavelmente o maior pegador do Continente, mas ele é tranquilão, e mais aproveita as oportunidades sexuais que surgem sem muito esforço do que as persegue como um sedutor típico. Quando ele está com a Yen, digamos que ela tem muito mais “fogo” e vem com umas ideias que deixam Geralt até meio encabulado às vezes.9

Exemplo:

“Geralt não estava particularmente impressionado com a coleção. Ele havia morado na casa da Yennefer em Vengerberg por seis meses e ela possuía uma coleção ainda mais interessante, incluindo um falo de proporções sem precedentes, aparentemente de um troll montanhês. Ela também tinha um magnífico unicórnio empalhado, sobre cujo dorso gostava de fazer amor. Geralt era da opinião de que o único lugar ainda mais inadequado para se fazer amor seria no dorso de um unicórnio vivo. Ao contrário do bruxo, que considerava uma cama um luxo e valorizava todas as possíveis utilidades que esta maravilhosa peça de mobiliário oferece, Yennefer era extremamente inventiva. Geralt recordou momentos agradáveis passados com a feiticeira em um telhado inclinado, no oco de uma árvore apodrecida, em sacadas (deles e de outros), na balaustrada de uma ponte, numa canoa balançando instável num riacho agitado e, por fim, enquanto levitavam trinta braças acima do solo. Mas o pior de tudo era o unicórnio. Um dia feliz, entretanto, a coisa desmoronou debaixo deles. Ela rasgou e se quebrou em pedaços, fazendo o casal cair na gargalhada.”

[Do conto A Shard of Ice do livro Sword of Destiny. Tradução livre.]

Outra quebra de estereótipo é que, apesar de sentir ciúmes, Geralt não julga a Yen por sua vida sexualmente livre; se ele tem o direito de fulecar com outras pessoas, ela também tem. O bruxo não quer moldá-la no tipo de mulher “aceitável” naquela sociedade, respeita sua liberdade e compreende que, para ela, não se deixar prender por algum homem também é uma forma de autoproteção. Apenas depois de muitos anos de idas e vindas, altos e baixos, Yennefer consegue desenvolver a confiança necessária para se entregar ao amor.

Nos livros, a relação do Geralt com a Triss é bem mais casual. Não se desenvolve qualquer romance, eles apenas têm um lance (numa noite em que a Triss o seduz com a ajuda de magia) num dos períodos em que Geralt e Yen estavam afastados. O bruxo reconhece que apesar de gostar muito da Triss como amiga, estar com ela “não é a mesma coisa que com a Yennefer”, e Sapkowski decide inverter um dos clichês mais comuns: explorar rivalidade feminina só para impulsionar uma narrativa masculina. Claro que a ciumenta da Yen fica magoada com a situação, mas acaba por defender a Triss dizendo que a conhece há muito mais tempo do que o Geralt e que as duas sempre se entenderam e podem contar uma com a outra. Ela compreende que Triss não se jogou para cima dele por malícia, mas por carência, então os três se resolvem, continuam amigos e Geralt e Yen enfim se reconciliam.

Os jogos nos dão a opção de escolher com qual das duas ficar para que criemos o “nosso” Geralt. Eu prefiro encarnar o personagem e tomar decisões que façam sentido de acordo com sua lógica interna, e no caso do Geralt, acredito que ele seja atraído para a Yen como um ímã porque se identifica com ela num nível muito mais íntimo do que com a Triss, já que também foi criado em circunstâncias extremamente traumáticas (o processo de bruxização é horrendo) e nunca conseguiu encontrar outro lugar/pessoa onde se sinta tão encaixado.

Fiquei curiosa e dei uma olhada nos tópicos do jogo no fórum da CDPred para ver como diferentes pessoas lidam com isso. Rolam ALTOS debates seríssimos entre #TeamTriss VS #TeamYen.

No TeamTriss tem mais gente que não leu os livros, o que é bem compreensível, principalmente para quem construíra uma relação com a Triss nos primeiros jogos e de repente aparece a Yen com todo um passado com o Geralt que existe em teoria, mas que o próprio jogador não experienciou. Tem outra parcela que não jogou os anteriores nem leu os livros, mas preferiu a Triss porque ela é mais legal ou só porque curtem ruivas mesmo.

Já no TeamYen, a maioria é de leitores que tinham investimento emocional na personagem da Yennefer, mas também de pessoas que não leram os livros mas acharam a relação Geralt + Yen mais interessante, e desta parcela, a maioria é de gente mais velha que passou por relacionamentos tão intensos e complicados quanto e se identificou. Tem ainda uma galera que leu depois de jogar e se arrependeu de escolher a Triss e quebrar o casal canônico.

Outra camada interessante dessa questão são os mecanismos psicológicos que fazem algumas pessoas preferirem se projetar no personagem (agindo no jogo de acordo com o que elas próprias fariam se estivessem em seu lugar) enquanto outras preferem habitar a subjetividade do personagem (tentando entender e simular o que este faria baseado em sua história e personalidade). Isso é bem maleável e muitas vezes inconsciente; pode variar conforme seus valores, suas experiências de vida (este ponto costuma influenciar muito nas escolhas românticas), conforme o seu estado de espírito, até de jogo para jogo.

 

Não é fácil ser Feiticeira

 

No universo de The Witcher as opções são limitadas para as mulheres em geral, mas mesmo as feiticeiras, que têm poder (tanto literalmente, poder mágico, quanto no sentido político) e liberdade excepcionais, são limitadas por preconceito. Elas podem influenciar politicamente os reinos, mas ainda estão submetidas aos homens que os comandam; elas têm liberdade sexual, mas são estigmatizadas e enfrentam altos obstáculos para construir relacionamentos mais profundos ou casar, e não podem gerar filhos se quiserem porque a maioria se torna estéril. Portanto, muitas acabam desenvolvendo personalidades como a da Yen: é preciso uma boa dose de arrogância para se fazer respeitar, já que as feiticeiras são vistas com desconfiança e/ou perseguidas. Em The Witcher 2, um guarda da prisão em que o rei Radovid colocou a Philipa diz que não faz ideia de por que ele a trancou lá, mas racionaliza que “toda feiticeira é culpada de alguma coisa“.

Uma das primeiras lições que as feiticeiras ensinam à Ciri é que ela deve ser assertiva, pois “não há nada pior para uma feiticeira do que ser indecisa”. Como a magia é um domínio das mulheres nesse mundo, ainda que existam magos que aprenderam a usar as forças da natureza, os reis sabem que precisam delas inclusive para ajudar em épocas de guerras. Cientes do enorme poder político que isto lhes confere, elas criaram o Lodge of Sorceresses após as guerras nilfgaardianas substituindo o antigo Conselho misto que definia cada feiticeira a ser enviada às diversas cortes reais como conselheiras dos monarcas para tentar direcionar os rumos do Continente sem interferências dos magos.  

Pode-se dizer que, embora protagonista da história, o Geralt acaba sendo um coadjuvante na vida dessas mulheres: são elas que conduzem de fato as narrativas em todas as mídias. Nos romances e no último jogo, a narrativa da Ciri é emoldurada sob a narrativa do bruxo, e no final de The Witcher 3, antes de entrar na White Frost, a filha dá um golpe (carinhoso) derradeiro no moral do pai postiço dizendo algo como “O que você entende de salvar o mundo, bobo? Você é apenas um witcher”. ¯\_(ツ)_/¯

Todas essas subversões de gênero dão um tempero único à obra de Sapkowski em meio ao segmento da fantasia. Uma vez que você adquire o gosto por The Witcher, vale saborear o menu completo: ler, jogar e assistir.

 


 

NOTAS

— Uma santa alma disponibilizou partes dos audiobooks originais de The Witcher no Youtube, com legendas em inglês. Não entendo bulhufas de polonês, mas o texto soa delicioso no idioma e dá para sentir que as atuações ficaram muito naturais.10

— Em comemoração aos 10 anos da franquia The Witcher, em 2017, o canal Noclip produziu uma série excelente de documentários sobre a história da CD Projekt e da produção dos jogos. Vale assitir.

— O canal RagnarRox tem uma ótima série de vídeos sobre as referências folclóricas da franquia. Gosto particularmente deste sobre a criatura Botchling e as várias lendas que constituíram sua criação. “Nomes são selos poderosos”; as palavras têm muita força no universo de The Witcher, tanto que as feiticeiras precisam usá-las da maneira mais precisa possível para que os encantamentos funcionem.

— Antes da série estrear na Netflix, eu gostaria de ver a atriz Caitriona Balfe, de Outlander, no papel da Yennefer. Além de ser parecida fisicamente, ela é uma baita atriz e sua personagem em Outlander até lembra o jeito da Yen, um misto de elegância e petulância. Mas a atriz Anya Chalotra me surpreendeu positivamente. Já o Henry Cavill me convenceu de que era mesmo fã dos jogos: ele basicamente emulou o Game Geralt, até a voz do dublador Doug Cockle! (O qual entrevistamos aqui no blog, a propósito.) As coreografias das lutas de espadas ficaram show e parece que ele praticamente não usou dublês.

— Vocês curtem como soa “witcher”? Descobri que muitas pessoas (geralmente falantes nativos de inglês) preferiam termos equivalentes como wizard ou warlock. No inglês antigo existia um termo específico para bruxo, wicca: “pronome masculino em Inglês Antigo que significa “male witch, wizard, soothsayer, sorcerer, astrologer, magician”. Não sabia disto até assistir a um episódio da série Vikings, pensar “peraí, esse cara falou WITCHER ou estou louca?” e pesquisar;  “he ne is wicca” (ele não é um bruxo/xamã), o cara fala na cena. Wicca, no masculino, acabou caindo em desuso enquanto o feminino wicce (depois witch) ganhava projeção e conotação pejorativa na Idade Média com a ascensão do catolicismo e atribuição da bruxaria mais às mulheres, embora homens também tenham sido queimados nas fogueiras da Inquisição.

 

EXTRA

Em novembro de 2019 saiu um DLC da Hilde para Soulcalibur VI. Estou convicta de que essa skin alternativa foi inspirada na Yennefer. Só jogo com ela assim desde então.

3 comentários
  1. Roberto Eluan

    No jogo 3, à época eu só tinha jogado o primeiro ato do 2, e fiquei com a Yen não só porque saquei o Geralt e jogava de acordo com ele, mas porque me identifiquei também; o cinismo compassivo dele é igual ao meu, sem falar na experiência de relações conturbadas com mulheres de personalidade forte.
    Agora que tô lendo pra valer os livros e jogando o 2. O primeiro vou passar sem porque mouse e teclado não dá mesmo.

    1. Bebs

      É interessante como as nossas bagagens de vida influenciam (conscientemente ou não) no “jogar”. Li VÁRIOS depoimentos como o seu lá no fórum da CDPred, e o que eu acho bacana na franquia é isto, as escolhas não se baseiam em certo ou errado, mas no que faz sentido pro jogador.

      Tá curtindo os livros? 😀

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