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Enfim, o recomeço

E no último capítulo de Nanomáquinas da Paixão…

kojipro

15 de dezembro de 2015 marcou, oficialmente, o fim do relacionamento de quase trinta anos do Kojima com a Konami. Após um ano conturbado, este dia também representa uma espécie de renascimento das cinzas. Num momento rise from your grave, a Kojima Productions ressurgiu um estúdio independente cujo primeiro jogo será lançado em parceria com a Sony, no PS4.

[E teve boatos que o Kojima tava na pior.]

Agora que o ciclo se fechou, podemos traçar uma retrospectiva deste término.

— Abril de 2005, pós-Snake Eater, Kojima fecha um plano de negócios de 10 anos com a Konami, que resulta na fundação do estúdio Kojima Productions e uma década de sucesso.

— Pula pra março/abril deste ano, aparecem os primeiros indícios de azedume na relação: a Konami anuncia uma reestruturação interna, Kojima sai do cargo de vice-presidente da divisão de jogos, seu nome e a marca de seu estúdio começam a sumir dos materiais promocionais e redes sociais de MGS; o Kojima Productions de L.A. vira Konami Los Angeles Studio.

Guillermo Del Toro e Norman Reedus lamentam Silent Hills ter sido cancelado. Pouco depois, a Konami confirma o cancelamento e retira o P.T. da Playstation Store. Até Junji Ito (uma das mentes mais prolíficas do horror japonês) estava envolvido no projeto. Surgem rumores de conflitos internos, a imprensa divulga reports anônimos sobre o declínio das condições de trabalho na empresa, de tratamento antiético aos funcionários à restrição das comunicações corporativas e acesso à intranet.

— Lá pelo meio do ano, até a Donna Burke (cantora de Sins of The Father e voz do iDroid) e o Akio Ōtsuka (dublador japonês do Snake) comentam que a Koji Pro encerraria suas atividades. Apesar disto, a Konami segue negando os problemas. Até que, em dezembro, a polêmica culmina em Geoff Keighley dando um bitch slap ao vivo na Konami por impedir legalmente o Kojima de receber os prêmios de MGSV no The Game Awards.

O contrato estava prestes a expirar e as divergências administrativas acumulavam-se sobre um desejo antigo de seguir outros rumos. Não foi esclarecido se o Kojima quis sair por conta própria ou se demitiram-no, mas, pela sequência dos fatos, acredito que no começo do ano o Kojima tenha expressado uma vontade de não renovar o contrato (ex-funcionários confirmaram que houve atrito entre ele e a diretoria em março) e que outros executivos tenham tentado negociar em vão. Como Metal Gear = DINHEIROS, isto deve ter emputecido a chefia. A conclusão dessa história escancara a intenção por trás da estratégia da Konami ao longo de 2015: retaliação. Resta a dúvida sobre quando o Kojima, que não é nada bobo, começou a flertar furtivamente com a Sony.

Para uma empresa de grande porte como a Konami, o maior trunfo do Kojima não é sua criatividade artística mas a sagacidade de businessman que ele tem; poucos entendem tão profundamente o mercado de jogos, a psicologia de seu público-alvo e como manejá-los. Não é fácil perder um MVP desses. No entanto, como diria o Jim Sterling num dos memes que definiram a indústria em 2015: #‎FucKonami

Quem vivenciou os anos 90 sabe que o lançamento de Metal Gear Solid foi uma revelação. Aquele amontoado de polígonos com bandana e codinome esquisito era a personificação do poder do game como experiência narrativa. Não que outros jogos não tivessem explorado a capacidade única de storytelling da mídia anteriormente, até os próprios Metal Gears de MSX já apontavam uma filosofia de design ousada. Mas, no ano mágico de 1998, o Kojima não apenas lançou um jogo, ele fez uma declaração autoral e o mercado mainstream notou. “Jogos são arte?” Depois de MGS, as conversas em torno desta indagação passaram a ser inevitáveis.

Aos fãs, principalmente os que acompanham de perto a carreira do Kojima há anos, fica o gosto da nostalgia pelo fim de uma era misturado ao tempero das excitantes possibilidades futuras. Enquanto os Snakes ganham, finalmente, seu merecido descanso, a mente inquieta do criador voa em busca de novos horizontes.

kojima homo ludens

Jogar não é apenas um passatempo, é a base primordial da imaginação e da criação. Verdade seja dita, aqueles que jogam são simultaneamente aqueles que criam.

*

[UPDATE] Outro dia estava lendo um comentário do ator Guy Cihi (James Sunderland em Silent Hill 2), que mora e trabalha há anos no Japão, sobre a situação confusa do Kojima durante os meses prévios à sua saída definitiva da Konami. Ajudou a entender por que a empresa insistia que o Kojima estava “de férias” naquele período.

“When you leave a full time position in Japan, you get to use up all the vacation days that you have accumulated over the years. Once the decision to leave is final, you stop going to the office long before your last official day. That’s how you use up your accumulated annual leave days. Use them or lose them. The official record for number of days worked is important for calculating the employee’s retirement bonus amount. So technically, Kojima is on vacation and still officially an employee. By the way, this article is very sweetly written. I guess the New Yorker doesn’t want any hard feelings with Konami.”

4 comentários
  1. Leonardo

    Uma pessoa fica sem acesso à internet por duas semanas e perde logo uma coisa destas. Verdade seja dita, já era mais do que expectável e depois da lamentável novela que assistimos…enfim.

  2. Shadow Geisel

    eu ainda acho que a Sony demorou muito. Mesmo discordando da frase que diz que “Kojima é um gênio”, não tem como negar a importância dele pra indústria de games.só um louco não ia querer um cara como ele no quadro de funcionários.

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