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Pela estrada somos

Nota: Pois é, mais um post de pensamentos soltos sobre Death Stranding. Porque eu continuo jogando. Quando o último servidor da Kojima Productions desligar, restará apenas a minha conta logada… será o derradeiro voidout.

Outro dia eu estava caçando músicas da Timbalada no Youtube e encontrei uma playlist do álbum acima, que nem lembrava que tinha essa capa. Óbvio que ela imediatamente me remeteu a Death Stranding, e como sempre acontece quando algo me remete a Death Stranding, a minha mente entrou em devaneios existenciais.

Do tipo: cara1… a essência de Ser é tão interconectada que a gente esquece.

Você já parou pra pensar em Si como uma construção coletiva? Que o Eu — essa entidade tão individual — é também uma costura de vários Outros que a gente vai alinhavando2 enquanto seguimos pela estrada da vida? Antes de mim, do Kojima e da Timbalada, o Almir Sater já matutava sobre isso.

Pela longa estrada, eu vou

Estrada eu sou.

Tocando em Frente, 1992

Me ocorreu que a música diz muito sobre esse Nós que somos Eu; esse Eu que somos Nós.

Vou ilustrar o pensamento com o meu exemplo pessoal pra ficar mais claro. Notei que tenho cinco respostas padrão quando me perguntam o que gosto de ouvir: Daft Punk; música barroca; Clazziquai Project; música de anime; música de videogame.3

Estes são, de fato, os sons que mais escuto, mas acontece que volta e meia estou fuçando o canal da produtora Biscoito Fino4… ou obcecada com os ritmos da Shakira5 e os batidão da Beyoncé6… daí passo do Quinteto Armorial7 pro Dizzy Gillespie8… faço uma parada no hino do América Futebol Clube9… e sigo viajando por sons completamente aleatórios até chegar em bandas como The HU, que mistura canto tradicional da Mongólia com metalzão ocidental.10

Não fazia o menor sentido essa salada musical, o cérebro humano não vem com um modo shuffle embutido. Mas então, ao olhar pra capa de Andei Road e ela me remeter a Death Stranding, tudo se encaixou.

Por que uma pessoa que não curte futebol perde tempo ouvindo hinos de times?

Por causa do irmão alucinado por futebol que ficava ouvindo em looping um CD de hinos de clubes brasileiros e eles grudaram na minha cabeça pra sempre. O mesmo irmão que me levou pro mau camin… digo, me ensinou a gostar de videogame. Timbalada veio do outro irmão ex-micareteiro que já começava o esquenta em casa botando axé no talo11. Música clássica, MPB e world music vieram da minha mãe por meio de um curioso artefato jurássico chamado fascículo: sempre que íamos à banca havia algum CD novo das coleções vendidas em jornais ou revistas. Músicas de anime surgiram na adolescência12, tinha uma pastinha com as amigas em que guardávamos as letras impressas em romaji pra treinar no recreio da escola, e esta é uma das memórias mais gostosas da minha vida.13

Olha só, todo o meu universo sonoro está atrelado a memórias. Momentos. Pessoas.

Kojima é muito musical. Às vezes eu tenho a impressão de que o maior combustível criativo dele nem são os filmes14, mas a música. O cara tira todo um conceito a partir de uma canção que ele ouviu por acaso durante uma viagem.

Death Stranding imprime essa característica junto com as estruturas do jogo, que, ao serem construídas, podem ser personalizadas com músicas da trilha sonora.

Sendo A HIDEO KOJIMA GAME, a princípio, todas as músicas são escolhas que falam mais do Kojima do que do próprio jogo — tanto as compostas pelo Ludvig Forsell quanto as licenciadas. Contudo, não é que dentro dessa ostentação do seu gosto pessoal o salafrário encontrou um jeito de permitir que o jogador também se expressasse sonoramente? Entendi isso à medida que passei a imaginar o porquê das músicas de cada nova estrutura que eu encontrava pelo caminho.

Por que será que o jogador Bola8naCaçapaEsquerda optou por personalizar esse Timefall Shelter com Breathe In, do Low Roar? Será que ele se identificou com a música? Acho que temos gostos parecidos… pera… talvez ele tenha pensado nessa música como uma mensagem aos outros Sam que eventualmente se abrigariam aqui? — e de repente a minha urgência em enfrentar o temporal cede à melodia suave. Calculo que tenho tempo suficiente pra parar, dar uma boa respirada, até brincar com BB antes de seguir meu rumo.

Não dá pra adivinhar a intenção por trás de cada uma, mas o fato é que as músicas estabelecem elos e diálogos incidentais entre Você-Sam e Outros-Sam. A trilha sonora, como todos os elementos em Death Stranding, mantém Nós-Sam interconectados… mesmo que a gente esqueça.

Retomando a pergunta lá de cima: você já parou pra pensar em Si como uma construção coletiva?

Te convido a refletir também sobre como os seus gostos musicais foram influenciados por pessoas ao longo da estrada da sua vida. Mais além: se nunca o fez, te convido a matutar sobre os Nós que constituem o seu Eu, e em como o seu Eu vem contribuindo na constituição de outros Nós.

Lá vem o sol,

E eu digo: tá tudo bem.

Here Comes the Sun, 1969

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