Zero, The Patriots e os mecanismos de poder em Metal Gear

Tags: hideo kojima, Kojima Productions, konami, metal gear, Metal Gear Solid

MGS-Patriots

Who are The Patriots?

La, Li, Lu, Le… não, pera!

Quem são os Patriots? A pergunta que mais assombra os personagens do universo Metal Gear é também a que mais confunde os jogadores. Há duas maneiras — igualmente complicadas — de respondê-la: 1) explicar seu papel no enredo da série; 2) analisar o que representam enquanto alegoria política.

 

La, Li, Lu, Le, Lo — OS PATRIOTS COMO ANTAGONISTAS

A curva de poder no universo Metal Gear se origina de um tratado secreto assinado pelas doze figuras mais poderosas dos Estados Unidos, Rússia e China pós-Primeira Guerra Mundial. Este grupo, o Wisemen’s Committee, do qual fazia parte o pai da The Boss, criou a organização The Philosophers para comandar o mundo por trás das cortinas, pois acreditavam que suas forças unidas garantiriam o melhor progresso da humanidade.

MGS-Wisemen's Committee

Wisemen’s Committee

Com as mortes de seus últimos fundadores durante a década de 30 (o pai da The Boss morreu pouco depois de contar tudo sobre os philosophers à filha), a filosofia dos Wisemen foi sendo corrompida numa relação inversamente proporcional à expansão do grupo: quanto mais poder obtinham, menos honravam seu propósito original. O ideal de unificação tornou-se irrelevante quando a economia da guerra se mostrou extremamente lucrativa para eles, que passaram a influenciar politicamente todos os conflitos ao redor do globo — especialmente guerras civis e golpes de Estado.

Foi nesta época que acumularam o Philosopher’s Legacy, uma fortuna estimada em 100 bilhões de dólares que era usada para, dentre outras coisas, patrocinar iniciativas como a Cobra Unit (os supersoldados de elite da The Boss) e desenvolvimento de armas nucleares. Com os cofres abarrotados e interesses políticos diversos, logo surgiram rixas internas principalmente entre os philosophers americanos e os russos, que se agravaram com o estouro da Segunda Guerra.

Aproveitando-se da confusão instaurada dentro da organização ao final da grande guerra, o oficial russo Boris Volgin, responsável pela lavagem de dinheiro dos philosophers, roubou todo o capital e dispersou por diversos bancos pelo mundo. Esta perda do Legacy foi o estopim da quebra entre os três pilares do grupo (EUA, USSR e China), culminando na Guerra Fria. Agora, era cada um por si e todos em busca do dinheiro.

MGS3-Volgin

Yevgeny Borisovitch Volgin, o filho de Boris, herdou o microfilme que continha as informações de todas as contas correntes e se apropriou do Legacy. Com recursos financeiros mais do que suficientes, ele pôde construir uma fortaleza (Groznyj Grad) e patrocinar o desenvolvimento da tecnologia bélica de Aleksandr Leonovitch Granin — o protótipo do que viabilizaria os Metal Gears posteriormente. Porém, o coronel Volgin não acreditava muito neste projeto e resolveu dispensar Granin para usurpar a tecnologia mais factível de Nikolai Stepanovich Sokolov.

Sokolov, que havia fugido para os EUA com o auxílio do Major Zero, fora deportado mediante um acordo político do governo americano com os soviéticos e depois sequestrado pela GRU e forçado a concluir seu Shagohod. Volgin pretendia usar todos os meios possíveis para derrubar o líder da União Soviética, Nikita Khrushchev, e então colocar seus aliados no poder e atacar a América para desestruturar a ordem mundial.

MGS3-The Boss-Volgin

O governo americano ordenou que The Boss forjasse sua deserção para a USSR e se aliasse ao Volgin a fim de sabotar os planos dele e reaver o Legacy. Uma missão suicida que ela aceitou resignadamente, disposta a se sacrificar pela esperança de que, ao recuperar seu dinheiro, os Philosophers reconciliariam esforços para a construção do mundo unificado e pacífico sonhado pelos Wisemen.

The Boss tivera uma experiência profundamente transformadora em 1960, quando participou da primeira missão espacial tripulada da NASA — observar a Terra do espaço abrira seus olhos para a estupidez das disputas de poder; um futuro melhor nunca se construiria lutando, e sim baixando todas as armas. Ela entendeu que “patriotismo” era nada mais do que uma ideologia usada para segregar as pessoas, criando fronteiras arbitrárias e instigando a rivalidade entre as nações para alimentar a economia das guerras.

Seu sacrifício deveria por um fim na competição entre os philosophers americanos e russos.

I could see the planet as it appeared form space. That’s when it finally hit me. Space exploration is nothing but another game in the power struggle between the US and USSR. Politics, economics, the arms race — they’re all just arenas for meaningless competition. I’m sure you can see that. But the Earth itself has no boundaries. No East, No West, No Cold War. And the irony of it is, the United States and the Soviet Union are spending billions on their space programs and the missile race only to arrive at the same conclusion. In the 21st century everyone will be able to see that we are all just inhabitants of a little celestial body called Earth. A world without communism and capitalism… that is the world I wanted to see. But reality continued to betray me.

The Boss, em MGS3

Enquanto isso, Naked Snake era manipulado para acreditar que sua mentora havia realmente desertado e que teria de matá-la junto ao Volgin. Sem sequer desconfiar, ele estava sendo usado pelos philosophers americanos para eliminar quaisquer provas de suas maquinações. Ao mesmo tempo, os philosophers chineses infiltravam sua própria agente secreta, a EVA, para que roubasse o microfilme do Legacy.

Ao término da Operação Snake Eater e com a dissolução dos Philosophers ao final dos anos 60, Snake retornou aos Estados Unidos como um herói, levando a alcunha de Big Boss, e Adamska (Ocelot), que atuava como agente triplo, conseguiu retornar metade do Legacy com as plantas do projeto de Granin para a CIA. Eva concluiu seu objetivo, mas foi expulsa da China porque o microfilme roubado era falso.

Contendas internas continuavam a desestabilizar o governo americano apesar da crise externa resolvida. Major Zero decidiu, então, criar uma nova organização e tomar as rédeas do poder, convencendo Ocelot a eliminar o diretor da CIA forjando seu suicídio, recuperar a lista com os nomes dos philosophers originais e garantir o controle do Legacy.

MGS3-Zero-Paramedic

Fora Ocelot, Zero convidou Big Boss, Sigint, Para-Medic e EVA (todos envolvidos na Operação Snake Eater e grandes admiradores da The Boss) para a sua maior empreitada e foi assim que, finalmente, surgiram The Patriots.

Politics, the military, the economy, they control it all. They even choose who becomes President. Putting it simply, the Patriots rule this country.

Presidente James Johnson, em MGS2

Agindo nos bastidores sob o codinome de Cipher, este grupo tinha por objetivo concretizar a utopia do mundo unificado — carry on the spirit of the true patriot, nas palavras de Ocelot. O problema é que cada um interpretava a visão da Boss à sua própria maneira: enquanto Big Boss desejava simplesmente uma sociedade livre de corrupções, onde os soldados deixariam de ser peças descartáveis nos jogos de poder, o Major Zero perseguia um controle absoluto porque acreditava que a humanidade não progrediria sem uma mão de ferro invisível a guiá-la.

Inevitavelmente, o desacordo e as tensões escalaram. Zero previu que o parceiro abandonaria o barco, mas ele não podia perder o ícone de sua nova ordem social — a propaganda política dos Patriots se sustentava na imagem do soldado lendário, Big Boss era idolatrado pela nação — e elaborou uma medida de emergência: cloná-lo, mesmo sem consentimento.

O projeto de clonagem desenvolvido pela Para-Medic, Les Enfants Terribles, que deu vida aos trigêmeos Solid, Liquid e Solidus Snake, acabou sendo a gota d’água para Big Boss, que vinha sentindo um profundo desgosto pelas atitudes do amigo. Ele rompeu definitivamente com os Patriots e partiu do continente para formar seu primeiro bando de mercenários — os Militaires Sans Frontières. Ocelot e Eva permaneceram ao lado de Zero espionando secretamente para o Big Boss, a quem foram fiéis até o fim.

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Major Zero abraçou o totalitarismo, Big Boss a anarquia militar.

Os eventos de Peace Walker, MGSV, MG, MG2, MGS e MGS2 (em ordem cronológica) foram os resultados diretos dessa rixa entre os dois. Com o tempo, o major ficou cada vez mais isolado em sua bolha de poder e paranoico ao ponto de investir na criação de um sistema massivo de inteligências artificiais — TJ, TR, AL, GW e a principal, JD — para perpetuar o domínio mundial dos Patriots e propagar seu legado postumamente.

Zero só não antecipou que as IA logo se tornariam autoconscientes e autossuficientes, e que tomariam o controle da comunicação e da economia da guerra enquanto seu criador definharia numa cadeira de rodas, mantido artificialmente em estado vegetativo.

MGS4-Zero

“This man was the source of it all. And he doesn’t even realize it. He’s completely unaware of the fact that he led the world to the brink of ruin.”

Ao final de MGS4, a derrocada dos Patriots se dá com a destruição das IA e as mortes de todos os membros originais da organização.

 

0 turns into 100 — OS PATRIOTS COMO ALEGORIA

A melhor referência para se compreender a função dos Patriots enquanto comentário político está no game plan de MGS2, em como o “mal” do jogo é descrito: a podridão que se acumulou dentro do Estado democrático da América ao longo dos anos, o monstro que a estrutura política do país criou, uma entidade intangível.

MGS2-GamePlan

CLIQUE PARA AUMENTAR

Esse pensamento ecoa no discurso do Campbell dentro do Arsenal Gear, quando a inteligência artificial explica sua existência ao Raiden…

To begin with — we’re not what you’d call — human. Over the past two hundred years — A kind of consciousness formed layer by layer in the crucible of the White House. It’s not unlike the way life started in the oceans four billion years ago. The White House was our primordial soup, a base of evolution — We are formless. We are the very discipline and morality that Americans invoke so often. How can anyone hope to eliminate us? As long as this nation exists, so will we.”

… e Big Boss o retoma na conversa com Old Snake no final de MGS4, ao refletir sobre “um novo mundo sem substância”.

Powered by the industrial and digital revolutions that came before it, this age gave birth to a twisted economic revolution — a battlefield revolution. It created a new world without substance. In this new world, there were no ideologies, no principles, no ideals, not even the thing she treasured most… loyalty. There was only the war economy. It was a colossal error in judgment — one Zero couldn’t possibly have foreseen. […]

It was then that the norms – manifested as AIs, the inheritors of Zero’s will… began to reproduce and take on a life of their own.

Dois conceitos chamam a atenção: normas que começam a se reproduzir e tomar vida própria e estrutura política intangível.

Ideias se reproduzem até virar ideologias que normatizam modos de ser, pensar e agir; e como memes, as normas se propagam, viram hábitos — e então cultura. “A própria disciplina e moral que os americanos invocam tão frequentemente”.

MGS2-Campbell-1

Voltando ao game plan, embora o termo “mal absoluto” passe a impressão de uma abordagem rasa e maniqueísta, a mitologia do universo Metal Gear é uma exploração surpreendentemente arguta das estruturas frágeis que sustentam a democracia moderna e das forças que dilatam e penetram suas rachaduras. Ou seja, de como a prática do poder — amparada pela cultura — vai sutilmente corrompendo as ideologias democráticas.

Isto se reflete na transformação de Naked Snake, um idealista quase ingênuo, em Big Boss, um niilista beirando o cruel. Paradoxalmente, o herói passou a alimentar o monstro que combatia.

You saw those children, didn’t you? Every one is a victim of a war somewhere of the world. And they’ll make fine soldiers in the next war. Start a war, fuel its flames, create victims… Then save them, train them… And feed them back onto the battlefield. It’s a perfectly logical system. In this world of ours, conflict never ends. And neither does our purpose… our raison d’etre.

Big Boss, em MG2

The impeding danger that looms behind Snake… The Mechs & armed force. They are menacing to MSF, but while playing the game, they can be made part of your unit. You are fighting for peace… but by the time you notice, you are knee deep in militarization. That is the Theme.

Kojima, certa vez no Twitter

MGSPW-ZEKE

A ascensão e consequente corrupção dos Philosophers e dos Patriots simbolizam as ideologias democráticas desvirtuadas como máquinas de poder.

Máquinas autossustentáveis porque alimentadas pelas normas culturais, e que estendem seus tentáculos pela sociedade, se enraízam na cultura e regurgitam modos de ser, pensar e agir — e assim estabelecem um status quo. O que era “0” torna-se “100”.

Even the mighty Patriots began with a single man. That one man’s desires grew huge… bloated. Absorbed technology, began to manipulate the economy. We realized too late… that we had created a beast. We had helped turn Zero… into 100. His sin… was ours. And for that reason… I’m taking it upon myself to send Zero… back to nothing.

Big Boss, em MGS4

Mudanças de status quo são sempre processos longos e difíceis porque exigem muito mais do que trocar os que estão no poder: é preciso desmontar a mentalidade cultural que mantém as ideologias que sustentam o sistema. Fazer o zero voltar a ser nada.

E o processo começa com questionar a si mesmo, porque o “sistema” somos todos nós.

MGS2-Raiden-DogTags

Essa lógica se aplicaria a qualquer superpotência, mas o Kojima ambientou a série nos Estados Unidos, então vamos usá-los como exemplo: embora tenha trocado as lideranças políticas mais de quarenta vezes nos últimos duzentos e poucos anos — num vai e vem entre republicanos e democratas, cada qual com suas versões particulares de conservadorismo ou progressismo — o país continua operando dentro da estrutura Pac Man imperialista nascida do excepcionalismo.

A variante secular do excepcionalismo tende a enfatizar as peculiaridades do modelo político democrático e liberal construído no país, por vezes advogando a necessidade de promovê-lo (e reproduzi-lo) mundo afora. […]

A religiosa, por outro lado, sublinha o papel especial da fé, dos valores morais e, ocasionalmente, de mitos “fundacionais” protestantes na formação de uma identidade nacional tipicamente norte-americana, sobre o qual se firmará, em seguida, a percepção de um papel especial para os EUA no mundo. […]

Ao fazer isso, concluo que, no final do século XIX, a matriz ideológico-religiosa da política externa norte-americana já continha elementos que explicariam o comportamento do país nas décadas seguintes quando se firmaria como superpotência.

Carlos da Fonseca, diplomata Mestre em Políticas Públicas, em Deus está do nosso lado: Excepcionalismo e religião nos EUA

As ideias do Destino Manifesto (mais especificamente a crença de que os EUA são uma nação predestinada à grandeza), que moldaram desde o estilo de vida dos cidadãos comuns à forma como o governo se organiza e atua no cenário mundial, são memes culturais que sustentam há séculos o modelo político predatório norte-americano.

We are the very discipline and morality that Americans invoke so often. How can anyone hope to eliminate us? As long as this nation exists, so will we.

Campbell digital, em MGS2

Era o tipo de mentalidade que permitia ao norte dos Estados Unidos, na época da Guerra Civil, perceber-se progressista enquanto desfrutava de um grande crescimento econômico baseado em exploração de mão-de-obra marginalizada e expansões territoriais arbitrárias.

Essa mentalidade ainda justifica ações político-militares absolutamente problemáticas — quem jogou o Ground Zeroes deve se lembrar do horroroso Camp Omega, que foi inspirado na prisão de Guantanamo — e guerras sangrentas em nome do “combate ao terror”, convencendo muita gente de que os atrozes danos colaterais ainda são um mal necessário.

Não escapa à ironia o fato de que o país que mais lutou contra ameaças nucleares tenha sido o único que efetivamente lançou bombas atômicas, destruindo duas cidades e incontáveis vidas inocentes.

MGS2-Raiden

Nas autocracias (exemplo atual: Coreia do Norte), a propaganda serve mais de moldura para os métodos abertamente opressores de imposição política e supressão das vozes dissidentes — os Aparelhos Repressivos do Estado, assim denominados pelo filósofo francês Louis Althusser. Idolatria compulsória às lideranças do Estado, censura, vigilância interna rigorosa, brutalidade.

Já nas democracias, pautadas nos direitos dos cidadãos, o exercício de poder depende de um contrato social entre governantes e governados, de suporte ideológico voluntário e legítimo. Os governos, então dependentes da cumplicidade do povo, utilizam mecanismos alternativos para persuadi-lo a aceitar políticas que atravessam os interesses coletivos — estes, que agem na esfera privada, Althusser denominou Aparelhos Ideológicos do Estado.

Ideology is a ‘representation of the Imaginary relationship of individuals to their real conditions of existence.

Louis Althusser, filósofo francês

A comunicação de massa foi instrumento ideológico desde o surgimento dos seus primeiros meios, mas tornou-se especialmente insidiosa nessa era digital em que vivemos mergulhados num oceano infinito de dados, mais nos deixando levar pelas correntes internéticas do que resistindo ao empuxo.

Porque na web o jogo do poder tem uma nuance particular: se tudo o que é compartilhado na internet deixa rastros digitais e pode ser facilmente contestado, censurar é inútil; logo, não adianta nada tentar controlar a comunicação — o jeito é criar contexto. Obscurecer os fatos, simplificar questões complexas, complicar questões simples, propagar mentiras até parecerem verídicas, enviesar os discursos. Enfim, soterrar a verdade sob camadas e mais camadas de desinformação, até o ponto em que exercitar o discernimento político seja uma tarefa mental hercúlea para o cidadão comum. Na confusão, ganha quem parecer mais convincente.

Media populism means appealing to people directly through media. A politician who can master the media can shape political affairs outside of parliament and even eliminate the mediation of parliament.

Umberto Eco, filósofo italiano, em Media Studies

Crises sociopolíticas são oportunidades férteis para se plantar ideias políticas. Há indícios, por exemplo, de que na época do 11 de Setembro o governo Bush se aproveitou do circo da mídia em torno da tragédia para manipular a fragilidade emocional da sociedade americana e avançar a agenda do Ato Patriota.

Two years after Edward Snowden exposed the National Security Agency’s secret collection of the data of millions of Americans’ private communications, the bulk of those programs remain intact. […] The law goes back to the 9/11 terrorist attacks and embodies the swift reaction of the executive and legislative branches in the wake of the deadliest terrorist strike on American soil. Within weeks of the attacks, Congress passed and President George W. Bush signed the bill into law, giving law enforcement and intelligence authorities unprecedented domestic authority — and the tools to wield that authority — to thwart plots against the United States.[…] The Bush administration argued in 2006 that the metadata analysis program could only be successful if the government could collect and store the data of millions of Americans, even though it conceded “the vast majority of (data collected) will not be terrorist-related”.[…] Reformers insist their opponents are fear-mongering when there’s actually little to fear from reforming domestic surveillance. The government hasn’t been able to provide any examples where the NSA’s bulk data collection played a key role in thwarting a terror plot.

Everything you need to know about the Patriot Act debate, CNN Politics

O pavor de possíveis novos ataques terroristas garantiu o apoio popular para uma revisão das leis de vigilância do país, o que expandiu a autoridade da agência de segurança nacional sobre a coleta de dados dos cidadãos e isto, em conseqüência, permitiu o desenvolvimento de um programa de monitoramento global, revelado por Edward Snowden em 2013. A comunidade internacional ficou chocada com o PRISM, mas o povo norte-americano também não esperava ter sua privacidade invadida dentro de casa.

MGS2, um jogo presciente.

É seguro afirmar que a circulação de ideias é arma das mais poderosas na democracia moderna. Em 1928, o “pai das relações públicas” já argumentava a doutrinação sutil como um elemento constitutivo das sociedades democráticas.

The conscious and intelligent manipulation of the organized habits and opinions of the masses is an important element in democratic society. Those who manipulate this unseen mechanism of society constitute an invisible government which is the true ruling power of our country. We are governed, our minds are molded, our tastes formed, our ideas suggested, largely by men we have never heard of. This is a logical result of the way in which our democratic society is organized. Vast numbers of human beings must cooperate in this manner if they are to live together as a smoothly functioning society.

Edward Bernays, em Propaganda

Bernays defendia a “manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões das massas” — uma forma de organização do caos — como um benefício coletivo. Já a história, esta não se cansa de mostrar que engenharia social só funciona suave para os engenheiros que controlam os mecanismos.

MGS4-BigBoss

Através dos Patriots, Metal Gear denuncia esse “governo invisível que é o verdadeiro poder” — os artifícios ideológicos com que se faz política na democracia, os mecanismos pervasivos de poder dos Estados democráticos, como a sociedade é conduzida sem perceber.

No entanto, não somos totalmente impotentes perante os “homens de quem nunca ouvimos falar”. Se nos falta poder para (e nem devemos) mudar o mundo, podemos começar mudando a nossa realidade. É o que Solid Snake diz ao Raiden em MGS2:

Find something to believe in, and find it for yourself. When you do, pass it on to the future.

 


 

NOTAS

Uma das coisas que eu mais gosto em Metal Gear é da série não ser maniqueísta. Não existe mal absoluto nem bem irrepreensível — heróis e vilões são idealistas que buscam “melhorar” o mundo; a diferença é que, para alguns, este fim justifica quaisquer meios.

Outra questão que a série não eufemiza é como o impacto psicológico das guerras pode ser tão devastador que alguns dos oprimidos acabam se tornando opressores. A fita da origem do Skull Face, no Ground Zeroes, é um dos momentos mais emblemáticos nesse aspecto.

“I know how you feel. I’ve felt that. So show me… That I’m not the only one.”

Eu fiquei um tempão assim quando ouvi pela primeira vez…

feels

 

— Um belo texto sobre o legado do Kojima na indústria;

E se a conspiração do médico de Metal Gear não der em nada?

— Um belo texto sobre os momentos finais do Major Zero em MGS4;

Shutting down the machine — A look at Zero’s death scene in Metal Gear Solid 4

— Um belo texto sobre o patriotismo enquanto instrumento político;

To be a Patriot

— Um texto interessante sobre poder;

Power is everywhere

“A key point about Foucault’s approach to power is that it transcends politics and sees power as an everyday, socialised and embodied phenomenon. This is why state-centric power struggles, including revolutions, do not always lead to change in the social order. For some, Foucault’s concept of power is so elusive and removed from agency or structure that there seems to be little scope for practical action. But he has been hugely influential in pointing to the ways that norms can be so embedded as to be beyond our perception – causing us to discipline ourselves without any wilful coercion from others.”

Bebs
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9 Comentários em "Zero, The Patriots e os mecanismos de poder em Metal Gear"
  1. Amanda
    26/05/2015

    Sensacional, Metal Gear talvez seja a franquia de jogos mais inteligente e cheia de ensinamentos que há por aí. Questiomentos e lições colocadas de forma magistral na história.

  2. Alessandro Messias
    26/05/2015

    Parabéns Bebs pelo ótimo texto e ótimo material sobre a serie MG, que na minha opinião é uma das series de jogos com um enredo mais ricos em vários sentidos.

  3. Ednator
    26/05/2015

    Já li (diversas) teses de mestrado que não se aproximam do trabalho desse seu texto.
    Se você adicionar referências, expandir mais os paralelos e formatar, da pra defender fácil.
    GG!

  4. Leonardo
    31/05/2015

    Mais uma óptima e excelente leitura. :D

    Não conhecia o conceito de excepcionalismo estadunidense mas sempre achei piada ao facto de a águia alemã do século passado ter tido continuidade no outro lado do Atlântico! Muito honestamente, se há povo excepcional será o chinês, que esteve 1000 anos à frente em invenções e que continua firme apesar de ter levado com Mongóis, japoneses e Comunismo e que vem provar que tudo tem fim, seja o imperialismo estadunidense como a própria hegemonia chinesa. Se há coisa que os romanos provaram é que todos os impérios caem pela sua própria dimensão!

    Bebs, você falou sobretudo no controlo político puro e duro mas creio que MGS tem outra coisa em especial: Arsenal Gear. O Arsenal Gear foi criado para controlar o fluxo inesgotável de informação criada pela sociedade das tecnologias e da web, mas se é verdade que o seu propósito é eliminar tudo o que não seja de acordo com os Patriots, verdade também é que tanto lixo é favorável à organização em causa. A wikipédia e os sistemas de ensino são exemplos disso…torna-se difícil saber o que realmente é verdade e o que não é. A democratização da informação e do ensino pode ser apenas uma fachada conveniente (como EVA diz:”Half of what I’ve been told was a complete and utter lie.
    The other half was a conveniently constructed lie.”). Creio que o Kojima sabe disso e que o fenómeno que você referiu de confirmation bias é praticado pelo Raiden quanto a tudo e à simulação VR (as expectativas quanto ao Coronel, a Snake…).

    A questão de utilizar a situação criada – o contexto – foi mais uma vez visível em França após os atentados e a lei que foi aprovada e que dizia o primeiro-ministro, não seria um “Patriot Act” mas a ver vamos.

    Os Philosophers/Patriots mais não são do que o clube Bilderberg (que agora vai ter um novo membro português e nada menos do que Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia), as (novas) 7 irmãs do petróleo, o Goldman Sachs tudo junto numa orgia de poder económico, político, legislativo (como a teoria da separação dos poderes continua actual e a ser violada).

    BTW, uma série que toca certas questões de controlo, ainda que de uma forma menos perfeita, é AC e a manipulação da história pelos Templários. Pena é que a Ubisoft não saiba, por mais que tente, não apresentar os Templários como maus e os Assassinos como bons.

  5. Leonardo
    01/06/2015

    Também é muito bom ler e discutir as suas matérias! :D

    Eu percebo a sua resposta mas continuo a pensar que o Arsenal mesmo “criando” contexto, o fizesse tendo por base e como objectivo a eliminação de conteúdo prejudicial e apenas residualmente fosse permitir réstias para não levantar muita suspeita, nomeadamente para aqueles que achassem suspeito não haver oposição ou uma vertente contrário, ao invés de verdadeiramente criar. Quando penso nos Patriots a criar contexto, penso mais na legislação (como mencionado no MGS4) e nas fantochadas eleitorais, ou seja, modificação do que já existe e é aceite como normal. Dito isto, no final e verdadeiramente, quer a eliminação quer a criação estão ligadas no âmbito dos Patriots.

    Off-topic: você já viu a campanha do IGA no Kickstarter?

    • Bebs
      01/06/2015

      Vi, mas confesso que não me empolgou tanto. O que você achou do Bloodstained?

      • Leonardo
        11/06/2015

        Enquanto jogo desejo-o muito mas a campanha em si está manhosa e o Iga desiludiu com as personagens.
        Em 1º lugar, gostava de saber qual o papel da companhia à qual o Iga apresentou este projecto e que precisou de provas de que o jogo teria boa recepção. Em segundo, se a o dinheiro angariado servirá para os trech goals, então os outros não conseguidos deveriam ser pagos pela companhia mas duvido que aconteça.
        Quanto às personagens, o Iga sempre foi acusado de reutilizar sprotes e isso é bem verdade e algo que me desiludiu bastante sobretudo no PoR com a reutilização de cenários mas reutilizar a Shanoa, o Albus e o Soma? A Miriam é uma versão dondoca da Shanoa mas agora com madeixas californianas (odiei este detalhe de moda), o outro de óculos, ainda que goste de ver alguém louro com óculos é uma continuação do Albus e o vilão parece o Soma, tudo isto com um desenho que não se compara à artista de OoE e muuuuuuito menos a Ayami Kojima!

  6. gustavo S. Machado
    25/06/2015

    Eu tinha algumas duvidas quanto a história e simplesmente amei seus comentários, sério mesmo! eu adoraria ver a sua visão sobre a cronologia dos acontecimentos sobre Metal gear! Sobre os personagens, e como é que john virou vilão nos primeiros jogos, seria fantástico 0.0

  7. 29/06/2015

    Que beleza, vim atrás de uma leitura descontraída antes de dormir e agora vou colocar a cabeça no travesseiro em crise existencial. Sucesso!

    Eu sempre suspeitei que MGS tinha uma super mensagem, mas nunca havia queimado muito fosfato para tentar decifrá-la. O Kojima mesmo dificulta pra você entender o que ele quer passar e já havia a muito desistido de tentar entendê-lo.

    Quero dizer, começa pela barreira linguística. Apesar de eu achar que domino bem a língua inglesa, quando o assunto é MGS eu me sinto um analfabeto funcional. Os diálogos são complexos/densos e eu perco a linha de raciocínio. E depois, o tanto de reviravolta que a história tem acaba de fazer o nó que a compreensão pela metade começou.

    Ou seja, nem com toda a boa vontade e tempo do mundo eu ia conseguir fazer as relações feitas no post. No máximo eu ia pegar a mensagem de maneira muito superficial (depois de decifrar o que realmente aconteceu, como, em que ordem e interligar tudo) e ainda teria que separar conteúdo de “kojimices” (alias, adorei o termo).

    Imagino que eu não seja o único nessa situação. Então, considerando que o importante é a transmissão da mensagem, não se poderia dizer que a franquia do MGS é um fracasso em termos de forma de expressão/comunicação? Eu entendi que o mais confuso dos jogos (MGS2) foi concebido para ser confuso, mas ele não exagerou na dose?

    Enfim, só estou um tanto indignado por ser fã da série e nunca ter entendido ela nessa profundidade… Agora, deixa eu ir deitar em descrença com a democracia, meio paranoico por ser manipulado e revendo meus conceitos de verdade.

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