Freud explica: Angela e Eddie em Silent Hill 2

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A mente humana é um puzzle complicado

Angela Orosco

Freud marcou seu lugar na história como uma figura controversa. Por um lado, muito do que ele propôs em seus extensos e obsessivos estudos sobre a psiquê, especialmente em relação aos aspectos da sexualidade, foi sendo questionado e desacreditado ao longo do século XX. Por outro, é inegável o impacto de sua obra na compreensão do funcionamento da mente humana, tanto que esta transcendeu o meio acadêmico, dissolveu-se em nossa malha cultural e segue até hoje influenciando as artes — literatura, cinema, inclusive os video games.

Talvez seu conceito mais importante, que perdura como um dos pilares da psicanálise, seja a estrutura que o neurologista alemão definiu para a personalidade, dividida em três níveis:

Id seria o nível mais profundo da mente, a parte subconsciente e irracional que guarda nossos impulsos, desejos, instintos primitivos;

Superego seria a camada que internaliza as regras, os valores morais e convenções sociais que aprendemos desde a infância, a implacável voz da consciência que nos faz sentirmos culpados quando não agimos da maneira considerada correta;

Ego (“eu”), a identidade que construímos, seria a parte mediadora que procura estabelecer um equilíbrio entre nossos processos internos (do Id e do Superego) e os estímulos externos que recebemos. Ou seja, a ferramenta com que nos adaptamos à realidade.

“Freud once said, “Life is not easy!”. The ego – the “I” – sits at the center of some pretty powerful forces: reality; society, as represented by the superego; biology, as represented by the Id.”

Fonte: Simply Psychology

Para que consigamos viver socialmente sem rolar uma pane no sistema a cada vez que nossas expectativas e percepções entram em choque com a realidade — já que é impossível ter uma existência absolutamente livre de conflitos — o Ego é cheio das artimanhas cognitivas, que são chamadas de mecanismos de defesa.

[Esta parte das teorias de Freud foi aprofundada mais tarde por sua filha, Anna, que publicou a pesquisa no livro The Ego and the Mechanisms of Defence, de 1936.]

Quando somos expostos a perturbações emocionais que geram grande ansiedade, o Ego tenta proteger a integridade psíquica com com alguma reação contrária (altas skills em parry).

defense-mechanisms

Alguns exemplos de mecanismos de defesa do Ego. (Fonte: simplypsychology.org)

Traumas, verdades dolorosas e sentimento de culpa são gatilhos infalíveis para os mecanismos de defesa do Ego, e retratados de maneira perspicaz em Silent Hill. Porque mais do que jogos de horror, esta série é uma coleção de character studies que utilizam alegoricamente o plano do macabro para escancarar as fraquezas humanas e explorar os abismos tenebrosos da mente que não temos coragem de olhar. Não à toa se fez necessário cunhar um subgênero próprio para as viagens à colina silenciosa: horror psicológico.

 

ESTUDO DE CASO: a) JAMES SUNDERLAND EM NEGAÇÃO

sh2 james

Descobrir-se como o tipo de pessoa capaz de tirar a vida da própria esposa é uma verdade emocionalmente devastadora, que James não conseguiu suportar. Passada a catarse durante o sufocamento de Mary, vendo o corpo inerte sobre a cama como constatação definitiva de que não havia mais volta, não adiantou tentar convencer a si mesmo de que, por trás daquele ato, havia somente a intenção nobre de libertá-la do sofrimento. Quando o marido arrependido caiu em desespero, seu Ego entrou em ação.

A defesa psicológica mais óbvia de James é a negação manifestada, principalmente, na criação de falsas memórias. Uma avalanche de sentimentos conflitantes se abateu sobre ele — a culpa pelo alívio que sentiria com a morte da Mary, a vergonha pela atitude covarde, o peso do fracasso como companheiro, a dor da perda — e, para suprimi-los, sua mente tentou reverter o cenário desolador criando uma fantasia de homem corajoso disposto a recuperar sua esposa. Simultaneamente, a verdade enterrada em seu subconsciente luta para chegar à superfície enquanto o poder da cidade materializa forças que o obrigam a confrontá-la.

“In many cases, there might be overwhelming evidence that something is true, yet the person will continue to deny its existence or truth because it is too uncomfortable to face. Denial can involve a flat out rejection of the existence of a fact or reality. In other cases, it might involve admitting that something is true, but minimizing its importance. Sometimes people will accept reality and the seriousness of the fact, but they will deny their own responsibility and instead blame other people or other outside forces.”

Fonte: About Education: Psychology

sh2 graveyard

A negação é sustentada por outros mecanismos sutis, como a projeção, que significa atribuir pensamentos e sentimentos indesejáveis a outras pessoas. Estudos mostram, por exemplo, que esta seria uma das razões para os haters que, além de acompanharem obsessivamente quem dizem odiar, ofendem e criticam sem qualquer propósito construtivo. Uma questão de mirar nos erros dos outros para não precisar encarar os próprios.

O autor do blog The Last Psychiatrist tem um ângulo interessante para isto, defense against change (defesa contra mudança):

Todo mundo está quebrado, menos eu. Meu único problema é estar cercado por essas pessoas”. E tudo é projetado nelas como defesa do Ego e como confirmação de que, de fato, todos os outros é que são loucos.”

ESTUDO DE CASO: b) ANGELA E EDDIE COMO MECANISMOS DE PROJEÇÃO

sh2 pizza

A cidade cheia de monstros e você aí de boa, comendo uma pizza?

Primeiramente, Angela e Eddie serviram para estabelecer uma nova regra importante dentro do universo de Silent Hill: cada indivíduo tem experiências “personalizadas” na cidade, como mostra a emblemática cena na escadaria do hotel Lakeview em que apenas a moça enxerga as chamas — “For me, it’s always like this“.

Embora todos estejam inseridos no mesmo plano, o poder sobrenatural da cidade molda o que cada um manifesta/enxerga como “realidade” de acordo com seus estados mentais, por isto que quando se encontram e interagem cada personagem tem uma percepção diferente do que está acontecendo.

“This whole town. It’s being invaded by the other world. A world of someone’s nightmarish delusions come to life. Little by little the invasion is spreading. Trying to swallow up everything in darkness.”

Harry Mason, no primeiro Silent Hill

Entretanto, as almas atormentadas que se cruzam em Silent Hill costumam ter muito mais em comum do que inicialmente aparentam. Assim, a função primordial deles na narrativa é refletir a culpa do protagonista.

sh2 not crazyEm seus primeiros contatos com Angela e Eddie — ainda em pleno processo de negação — James inconscientemente os transforma em mecanismos de projeção, acreditando ser a pessoa sã entre os desequilibrados.

Isto é perceptível até no tom distante e condescendente de sua conversação.

Contudo, não há como escapar da verdade por muito tempo, e logo, tanto James quanto o jogador começam a se questionar por associação: afinal, se estou perdido num lugar bizarro em que todos que cruzam meu caminho ou são monstros ou pessoas perturbadas, e eu sou o único que parece são, alguma coisa deve estar errada.

Abre parênteses…

Neste momento, alguém deve estar se perguntando: como eles seriam mecanismos da psiquê do James se são pessoas de verdade, e não manifestações como o Pyramid Head? Bem, eles podem até ser reais, mas James não os encontra por acaso. O poder sobrenatural da cidade é cheio de nuances, pessoas presas em infernos mentais parecidos podem acabar “se atraindo” como ímãs e servindo de espelhos umas para as outras.

… fecha parênteses.

Além disso, uma mulher e um homem (em vez de duas mulheres ou dois homens) ocuparem os papéis de projeção foi, certamente, uma escolha de gêneros bastante deliberada.

Eles representam as duas faces da tragédia de James.

sh2-eddie

Eddie Dombrowski é a face do agressor covarde que, assim como James, passa por estágios de negação. Ele começa rejeitando o fato de que foi capaz de matar, e depois, quando não consegue mais escapar da materialidade do crime, passa para a racionalização e admite o erro, mas elabora justificativas que o eximam da culpa.

“Don’t get all holy on me, James. This town called you, too. You and me are the same. We’re not like other people. Don’t you know that?! Let’s party!”

– Eddie

sh2 mirror

Angela Orosco é a face da vítima que carregará sentimentos tortuosos até o fim de seus dias. Traída por quem deveria amá-la e protegê-la, como Mary, seu discurso ecoa o tom depressivo e confuso com que a esposa de James falava quando estava doente, com uma linguagem ora agressiva (para repelir), ora infantilizada (para suplicar por atenção).

“No… don’t pity me. I’m not worth it… Or maybe… you think you can save me. Will you love me…? Take care of me…? Heal all my pain…? …That’s what I thought.”

– Angela

“Flowers? I don’t want any damn flowers! Just go home already! Look! I’m disgusting! I don’t deserve flowers. Between the disease and the drugs, I look like a monster. Well, what are you looking at? Get the hell out of here! […] James… Wait…. Please don’t go! Stay with me! Don’t leave alone! I didn’t mean what I said… Please James! Tell me I’ll be okay… Tell me I’m not going to die. Help me…”

– Mary

sh2 rooftop

“Liar! I know about you! You didn’t want her around anymore! You probably found someone else!”

– Angela

“Don’t make excuses, James. I know I was a burden on you. You must have hated me. That’s why you got rid of me.”

– Mary

“I want to die. That is my one and only wish. But it’s a wish that’s proven difficult to obtain. I want to die, and yet I’m forced to keep living.”

– Angela

I’m no use to anyone. I’ll be dead soon anyway. Maybe today, maybe tomorrow. It’d be easier if they’d just kill me. But I guess the hospital is making a nice profit off me, they want to keep me alive.”

– Mary

Angela sofreu abusos na infância, Eddie passou por bullying, James não aguentou o fardo de uma esposa em estado terminal — situações traumáticas que os fizeram desmoronar, partindo para atos violentos como última saída. Os diálogos do jogo ilustram todo o malabarismo mental dos três para tentar mitigar suas dores.

You’re the same as me… It’s easier just to run…”

– Angela

Vendo-se refletido em Angela e Eddie, James finalmente compreende que é impossível evitar o sofrimento e as consequências de nossas atitudes. Por mais que tentemos fugir, a verdade sempre encontra meios de nos alcançar.

sh2 couple

 

NO FINAL, SÓ PODE HAVER A VERDADE

Em minha humilde opinião, há uma linha tênue que separa jogos verdadeiramente imersivos dos que são simplesmente envolventes. Um jogo envolvente é aquele que, de tão bem feito, interessante ou divertido, fisga sua atenção até o fim e você não consegue parar, esquece do tempo. Mas para ser imersivo, de fato, um jogo precisa ir um pouco além e te colocar na pele do personagem para você sentir todas as sensações, tanto as boas quanto as ruins, e que esta conexão seja tão visceral que você não consiga largar o controle mesmo que a jornada esteja sendo desconfortável.

Atrevo-me a dizer que Silent Hill 2 é um dos jogos mais imersivos de todos os tempos porque a experiência como um todo trabalha para que o jogador entre no estado psíquico do James. Sua trama, construída nas sutilezas, garante que a verdade seja descoberta gradualmente, no ritmo do personagem (sem o risco de adivinhar o plot twist no meio do caminho e arruinar o impacto emocional de assistir à inescapável fita cassete), enquanto exploramos a cidade num estado de tensão misturada com fascínio, alternando entre sensações de incômodo, repulsa, confusão, melancolia.

sh2 cassete

Absolutamente tudo dentro de SH2 foi pensado para funcionar em uníssono “descascando” as camadas de ilusão até não restar qualquer defesa psicológica para o James, nem dúvidas para quem o controla. Angela e Eddie, mais do que meros coadjuvantes são personagens complexas em si, mas também ferramentas narrativas poderosas para auxiliar protagonista e jogador no processo de autodescoberta.

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NOTAS

* O blog mencionado no texto, The Last Psychiatrist, é de um psiquiatra forense que tem uns textos incríveis (em inglês). Recomendo muito a quem se interessa por psicologia/psiquiatria.

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* Ignorei o Pyramid Head neste artigo para não desviar o foco da Angela e do Eddie, mas vou deixar aqui o link de um post excelente (em inglês) sobre ele.

Is Pyramid Head a rapist?

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* Para saber um pouquinho mais sobre Sigmund Freud, Anna Freud e psicanálise.

Biografia do Freud

Biografia da Anna

História da Psicanálise

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* Sobre as diferenças (que ainda confundem muita gente) entre o trabalho dos psicanalistas, psicólogos e psiquiatras.

Psicólogo, Psicanalista ou Psiquiatra?

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* Sobre Id, Superego e Ego, numa explicação mais simples e didática.

Freud – A Estrutura e a Dinâmica da Personalidade

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Até a próxima! I’ll see you in my restless dreams

Bebs
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6 Comentários em "Freud explica: Angela e Eddie em Silent Hill 2"
  1. 02/03/2015

    Bebs, eu te falei que você devia ter largado Design pra fazer Psicologia?

    Tem uma conversa bem legal entre a Angela e o James no final que é a síntese disso:

    “Você me ama? Você cuidará de mim? De toda minha dor?” Aí o James fica em silêncio por segundos, visto que ele nunca fez isso pela própria esposa. “Foi o que achei.”

    A tradução acima foi toda livre. hihi

    Eu nunca tinha pensado nesta teoria de ímãs, mas faz sentido. É legal que este é um dos poucos games que realmente toca na ferida de problemas inseridos na nossa sociedade: tristeza (depressão), violência, aceitação, repressão, abuso sexual, fobias etc etc. Ele é o melhor game da franquia por isso.

    E ele sem dúvidas é o mais imersivo. Inclusive, se teve algo que eu detestei neste Silent Hills, é o Kojima ter criado um trailer completamente cinematográfico, com direito a um pulo do cara em câmara lenta dentro de uma porta. Poxa, Silent Hill nunca foi assim, ele sempre pareceu um filme caseiro, com câmeras amadoras, e usando e abusando de filtros que só deixam a imagem pior, e o cara vai lá e me faz um jogo repleto de efeitos especiais? Não gostei.

  2. 03/03/2015

    Um dos melhores textos que já li sobre o assunto!

    Deixo aqui expresso meus mais sinceros PARABÉNS para a autora!!!

    Excelente texto!! :D

  3. 03/03/2015

    Fantástico Bebs! Eu estudei um pouco de Freud quando estava fazendo um glossário de termos da psicanálise dele pra facul de tradução. De todos os protagonistas de SH nenhum é tão profundo e complexo quanto o James. E o fato da história ir se revelando conforme vamos descobrindo as coisas durante a exploração desse mundo macabro é uma jogada de mestre que dificilmente vemos em outros jogos.
    Esse aspecto psicológico do James que molda a experiência do jogador que vai montando cada peça do quebra-cabeça junto com o protagonista e de presente ganha uma mega revelação quando tudo se encaixa e de fato, Eddie e Angela estão aí pra dar esses moldes junto com a atmosfera da cidade. SH2 é de longe um dos melhores de toda a série!

  4. Roberto Vasconcelos Eluan
    06/03/2015

    Ótimo texto, Bebs. Aliás, recomendo a leitura desse site, que, provavelmente, não que seu conteúdo seja verdadeiro, mas deve ter inspirado os autores do jogo. Inclusive, Carl Jung (na minha opinião, o aluno que transcendeu o mestre) fala muito sobre isso nos seus arquétipos, e que é algo que a série Silent Hill trabalha com maestria, especialmente o primeiro.
    http://www.espiritualismo.info/indice.html

  5. 29/03/2015

    Ótimo texto, e obg por citar todas essas fontes <3 Uma das coisas que me faz adorar o Silent Hill é como ele brinca com essa idéia do vilão interior… E como já foi dito aqui nos comments, muita coisa do jogo também me lembra do Jung, aquele divo.

  6. Frederico
    13/12/2016

    Como já disse anteriormente e diversas vezes: Silent Hill 2 é uma verdadeira OBRA-PRIMA da indústria dos games. É muito mais que um simples jogo eletrônico imersivo. Na minha opinião, o melhor game do gênero survival horror já criado. História incrível, roteiro complexo e rico, ótima narrativa, ótimos gráficos, ótima trilha sonora composta por Akira Yamaoka e personagens profundamente bem construídos em seus mínimos e íntimos detalhes. Realmente um trabalho genial do extinto(lamentavelmente) Team Silent, da Konami. Eu AMO esse jogo de paixão!

    Beijos, Rebecca. Parabéns pelo texto!

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