França Antártica e Jecripe: mais dois games brazucas!

Por Vivi Werneck*

É sempre bom saber que mesmo diante da descrença de alguns em relação à ainda modesta indústria de games no Brasil, vários entusiastas, estudantes e empreendedores já estão conseguindo mudar um pouco essa realidade. A contribuição pode ser pequena, a princípio, mas já demonstra todo o potencial dos nossos profissionais na área de desenvolvimento de games.

Querem um bom exemplo do que estou dizendo? Melhor, darei dois então. Recentemente foram lançados, no Rio de Janeiro, dois novos jogos para as plataformas PC e Mac. Apresento-lhes França Antártica e Jecripe. Ambos foram desenvolvidos por alunos e colaboradores nos laboratórios de computação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e com investimento da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro (SEC).

A primeira fase do game França Antártica, que é um jogo de ação em 3D, se passa na Baía de Guanabara (RJ) no ano de 1552, época de importante presença francesa no local. O jogo é uma aventura em terceira pessoa e foi desenvolvido a partir da engine Unity3D. Já o Jecripe (Jogo de Estímulo a Crianças com Síndrome de Down em Idade Pré-Escolar), como o próprio nome diz, é voltado para crianças portadoras da Síndrome de Down, com idades entre 3 a 7 anos. O objetivo do game, também em 3D, é estimular a coordenação motora dessas crianças assim como sua capacidade de interação com o computador.

Para explicar como cada game foi desenvolvido, nada melhor que conversar com os responsáveis por cada um. Neste caso, bati um papo com os desenvolvedores Erick Passos (França Antártica) e André Brandão (Jecripe).

Ação em 3D conta um pouco da história da fundação do Rio de Janeiro

Quem começa apresentando o seu trabalho é o diretor de projeto do França Antártica. Erick conta que a ideia do jogo surgiu há cerca de quatro anos com algumas pessoas do departamento de Cinema da UFF, que queriam contar a história da origem do estado do Rio de Janeiro através de uma animação em 3D. Segundo Erick, nessa época muitas coisas foram feitas, como o início do trabalho em cima do roteiro e das animações em 3D.

“Posteriormente, com o envolvimento do professor Esteban Clua, do departamento de computação da UFF, essa ideia de uma animação se transformou num roteiro de um jogo”, conta Erick. “Esse jogo foi, então, organizado em forma de episódios, cujo personagem é um índio, o Jeró. Ele é capturado nessas presenças francesas ao Rio e levado à França, onde vive uma parte da vida lá. Na história, ele aparece como um indígena que serviu de intérprete para Nicolas Durand de Villegagnon, no navio dele na expedição de 1555”.

O diretor do França Antártica conta ainda que o roteiro já estava pronto, mas ainda não existiam meios para a produção do game.

“Em 2008, começou a aparecer um time capaz de realizar esse projeto, que já existia. Essa equipe foi montada com programadores, cineastas, historiadores, artistas e um grupo de gente bacana empolgada com desenvolvimento do projeto”, explica Erick.

“Aí dissemos: está bom, vamos pegar o projeto e transformá-lo num produto. Numa marca, num jogo e aí surgiu essa oportunidade com o edital da SEC, em 2008, da gente ter o fomento, ter o dinheiro, para tocar a ideia adiante. Felizmente, fomos um dos projetos contemplados pelo edital e, com isso, conseguimos o financiamento para produzir o primeiro episódio do França Antártica”.

Com a equipe formada e com o patrocínio garantido, a equipe pôs a mão na massa, ou melhor, no computador e durante o ano de 2009 terminaram o primeiro episódio, que está totalmente jogável.

E como é o jogo?

O França Antártica é um game de ação em terceira pessoa e lembra um pouco o estilo de Tomb Raider, especialmente pela parte de exploração. O jogo também tem um modo de câmera parecido com a presente em Resident Evil 4, que é uma câmera em terceira pessoa bem próxima ao ombro do personagem. O jogador tem à disposição três formas de ataque: arco e flecha, mão livre e pedra. Durante a aventura, o índio Jeró irá combater animais perigosos, outros índios de tribos rivais e os próprios franceses.

A arte do game é uma mistura de cell shading para os personagens, fazendo-os parecer um cartoon, e um estilo mais realista para o cenário, que contou com uma primorosa pesquisa em cima da flora natural da época, com vegetação típica do período de 1555. O segundo episódio do jogo se passará na França, já o terceiro retratará a volta de Jeró ao Brasil no navio francês e o quarto é a finalização da história, já no Brasil.

E vocês sabem a melhor parte de tudo isso? O primeiro episódio do França Antártica está disponível, gratuitamente, para download (PC e Mac) no blog de desenvolvimento do game! É só acessar os links abaixo:

França Antártica versão PC

França Antártica versão Mac OSX

Jecripe: game ajuda crianças com Síndrome de Down

Outro game que merece destaque, e também é digno de aplausos por sua contribuição social, é o Jecripe (Jogo de Estímulo a Crianças com Síndrome de Down em Idade Pré-Escolar), dirigido André Brandão. O jogo também foi feito nos laboratórios de computação da UFF e financiado com recursos da Secretaria de Cultura do Rio, no mesmo edital de 2008. Ele foi desenvolvido em 2009 e levou 10 meses para ficar pronto.

Segundo André, diretor executivo do Jecripe, este é o primeiro jogo voltado inteiramente para crianças portadoras da Síndrome de Down. Ele ainda acrescenta que falta no mercado jogos que estimulem de forma correta e eficaz crianças portadoras de necessidades especiais e que esse foi um dos motivos do desenvolvimento deste game.

“Normalmente, para se fazer o estímulo nessas crianças especiais, ao invés de utilizar um jogo, são utilizadas diversas atividades específicas de diversos jogos tradicionais. Isso causa, em crianças que passam por terapia de incentivo ao estímulo, uma interrupção muito grande na proposta de atividades que abranjam totalmente as necessidades de crianças com Síndrome de Down. identificado isso, nós vimos a necessidade da criação de um jogo completo que tenha atividades planejadas de acordo com a necessidade específica da criança”, explica André.

O diretor do Jecripe teve uma grande ajuda no desenvolvimento dos métodos a serem aplicados no jogo. Tratando-se de um game com fins educacionais e, mais especificamente, na área médica, nada melhor (e indispensável) que contar com a colaboração de especialistas na área. Neste caso, o desenvolvedor recorreu a própria mãe, que é fonoaudióloga, e já utiliza jogos computacionais para incentivar o estímulo dos sentidos em crianças com necessidades especiais. E, segundo André, foi justamente ela que ajudou a identificar essa carência de jogos voltados para esse fim.

Como funciona o Jecripe?

O jogo ajuda a promover um primeiro contato entre a criança e o computador através de estímulos. Primeiro a criança é estimulada, por meio de uma atividade, a apenas movimentar o mouse, sem clique. Da segunda parte em diante, ela é incentivada a mover o mouse e a clicar e assim por diante.

Cada nova atividade é pré-requisito da antecessora e podem ser uma brincadeira na casa de bolhas, brincar de imitação, dentre outras. Duas coisas muito importantes: todo o jogo é narrado, já que se supõe que nessa faixa etária pré-escolar a criança ainda não saiba ler direito.

Outro ponto interessante é que os personagens do jogo também têm Síndrome de Down. Para André, “isso permite uma maior imersão, uma maior identificação do jogador. Consequentemente, isso pode melhorar os resultados finais”.

André deixa claro que a ideia é colher os resultados obtidos com o Jecripe e aperfeiçoá-lo no futuro. “Nós pretendemos divulgar o jogo até para podermos no futuro inserir mais atividades, com mais estímulos e mais personagens. O outro objetivo é consolidar pesquisas nessa área. Nós ainda temos certa carência em pesquisa multidisciplinar envolvendo profissionais de computação, pedagogia, psico-pedagogia, psicologas, profissionais entre outros”.

O Jecripe também está disponível para download gratuito, em versões PC e Mac, no blog oficial do game. É só baixar nos links abaixo:

Jecripe versão PC

Jecripe versão Mac OSX

Olha só a galera que participou do desenvolvimento dos games:

*Fonte: Nonuba Games

Vivi Werneck
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13 Comentários em "França Antártica e Jecripe: mais dois games brazucas!"
  1. jack_
    28/04/2010

    É isso ai, parabens pelos projetos.
    Wue venham mais e que nós brasileiros, iremos no futuro ser referencia em desenvolvimento de Games.

  2. alex
    28/04/2010

    Sempre é bom ver brasileiros envolvidos em jogos e mostrando que o Brasil tem um pontecial que infelizmente não é notado e aproveitado.
    Terminei o download e vou testar França Antártica.

  3. 28/04/2010

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  4. rafaelx1bm2
    28/04/2010

    daqui 1 ano +/- já deve ter um jogo grande como Dragon age criado no brasil :)

    • 28/04/2010

      Talvez ainda vá faltar a grana suficiente para desenvolver aqui um game do porte de Dragon Age Origins. Não é qualquer 100 mil reais que faz um jogo do porte da Bioware.

      Mas acredito que estamos formando um pessoal bacana e esforçado na área. É esperar pra ver! ^^

    • Shadow Warrior
      28/04/2010

      Isso que é ser otimista :)

      • rafaelx1bm2
        28/04/2010

        vamos juntar algum dinheiro para Todos os gamers criarem um jogo super legal mais legal que o Dragon
        Age :) (pensamento super-otimista)

        P.S: o dificil vai ser escolher o tema do jogo, RPG,FPS,etc….

        :):):):):):):):):)

  5. Renan Rodrigues
    28/04/2010

    Muito legal ver que projetos assim!
    Isso prova que nosso país tem um bom potencial, ainda não aproveitado.
    Vou baixar o FA pra testar.

  6. aureliox
    28/04/2010

    Nossa, parabéns, é muito bom ver coisas assim!

    Sobre o França Antártica: fiquei de boca aberta por causa do cenário, está muito bem feito e em 3D! Agora o índio deixou a desejar, principalmente por causa dos movimentos

  7. 28/04/2010

    Muito boa a matéria, Vivi! É mto bom conhecer esses projetos, nos faz acreditar mais no nosso mercado saber que há pessoas que não escolheram ficar de braços cruzados.

    Já zerei o França Antartica. rerere
    Macaquinho filha da mãe! não alcanço ele nem que a vaca tussa! rerere

    Essa engine Unity 3D q eles utilizaram é mto boa. Dá inclusive pra jogar os jogos feitos nela direto do browser. Ela tem um modelo gratuito pra quem quer estudar, não sei direito como é, mas vale a pena dar uma conferida pra quem for interessado.

    • 28/04/2010

      Zerei a parte Um (antes que venha alguém falar “dãããã” rsrs)

  8. KabutorIGamer
    28/04/2010

    Oo os graficos sao tipo do GBA mais desenvolvido no brasil Ne Nos ainda estamos em baixa categoria em criar games nos somos mais de traduzir ou fazer patch Correçao de corres etc mais isso vai ajudar quem temsindrome de dawn msm Muito bom finalmente o brasil vai ajuda o mundo num projeto desenvolvido aqui xD

  9. Diga
    29/04/2010

    Mas puxa vida… hehehehe! Dragon Age é a referência de vocês! Rsrs! Mas seria interessante (viajando um pouco) se existisse um jogo de fantasia que abordasse temas que fazem parte do cotidiano do brasileiro. Corrupção, tráfico de entorpecentes, tudo isso inserido num mundo cheio de Dragões (e curupiras)… chega, acho que o álcool subiu muito na minha cabeça.

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