Eva, uma Bond Girl invertida

Tags: 007, hideo kojima, James Bond, Kojima Productions, konami, Metal Gear Solid, mgs

Me recuso a escrever EVA em caps porque me lembra isso.

MGS3-Eva1

CONTÉM SPOILERS

Tropes são fórmulas narrativas. Se eu disser “Bond Girl”, automaticamente você formará uma ideia mental bem definida do tipo de personagem a que estou me referindo, não é mesmo?

Pois Snake Eater é o MGS mais 007 e a Eva, basicamente, é uma Bond Girl.

Mas o Kojima adora kojimar desconstruir narrativas e inverter tropes. Alguns de maneira mais sutil e outros escancaradamente, quase todos os personagens criados por ele subvertem, em algum nível, as expectativas do jogador.

Olhando por fora, sem o contexto, é compreensível deduzir que personagens como a Sniper Wolf ou as beldades da Beauty & The Beast Unit são objetificações vazias (obs: escrevi neste post sobre o comentário sociopolítico além da erotização das B&B).

Porém, as aparências muitas vezes enganam no universo Metal Gear e, apesar da série ser, sim, cheia de fanservices, as mulheres do Kojima (isso soou estranho) sempre têm alguma complexidade que as humaniza para que não sejam somente eye candy.

Meryl se faz de durona pra camuflar um romantismo quase ingênuo e o anseio por aceitação naquele universo hipermasculino, enquanto idealiza a imagem do supersoldado que o Snake representa. Mas, gradativamente, ela descobre grande força interior e vai definindo, em seus próprios termos, seu lugar no mundo. E desconstrói lindamente o clichê do “par romântico” dando um pé na bunda do protagonista.

Abre parênteses…

No final do primeiro MGS parecia que a Meryl e o Snake seriam felizes para sempre. Aí vem o Kojima e separa friamente os dois em MGS4. Confesso que eu ADOREI essa decisão narrativa, porque acho mais coerente do ponto de vista psicológico. Toda a vida do Snake se resumiu ao campo de batalha, ele só conhece a violência das guerras. Um cara desses certamente teria dificuldades de se conectar emocionalmente, de construir vínculos afetivos mais profundos, principalmente num relacionamento amoroso. Meryl preferiu alguém que saberia valorizá-la. Já a conexão de amizade do Snake com o Otacon foi mais fácil porque rolou identificação: Hal também era um solitário tentando escavar algum sentido dos escombros de uma existência trágica.

… fecha parênteses.

Naomi, a cientista que se finge marionete nas mãos de poderes muito maiores do que ela, mas que manipula todo mundo enquanto luta por suas convicções. The Boss, a “traidora” que se provou a única verdadeira patriota, fiel aos princípios da honra e da lealdade, e basicamente o pivô de todas as tramas da série. Rose, a “namorada chata” que se torna peça fundamental para a quebra da ilusão dos Patriots. Emma Emmerich e Sunny, as meninas kawaii, facilmente subestimadas, eram os únicos gênios tecnológicos capazes de derrubar a rede de controle global do inimigo e foram quem, efetivamente, derrotou o inimigo.

Faltou citar algumas, mas vamos voltar à análise da femme fatale de MGS3, pois, se tem uma personagem na série com motivo e contexto bem específicos para que sua sensualidade seja explorada na narrativa, é a Eva. De aparência propositalmente tentadora e estereotipada, ela seduz o Snake e cria uma série de expectativas no jogador para que, ao final, ambos tenham quebradas suas suposições sobre a espiã.

007 - Honey Ryder

Quem acompanha 007 sabe que os destinos das Bond Girls geralmente seguem um padrão:

— São seduzidas pelo charme irresistível do Bond, até as mais duronas eventualmente acabam cedendo;

— Viram sidekicks dele, seus objetivos e motivações pessoais ficam em segundo plano;

— Muitas morrem/se sacrificam para servir de catalisador da fúria do Bond;

— Ou terminam se relacionando com ele, mas não passam de interesses românticos efêmeros solenemente esquecidos na próxima missão, com uma ou outra exceção como a Tracy Bond, com quem o James chegou a casar (mas que também não teve muita sorte).

MGS3-Eva-Snake

No caso da Eva, basta uma análise rápida do arco narrativo dela para ver como os pontos acima foram desmontados. Seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos:

— É ela que seduz o Snake;

A relação deles começa com uma inversão de papéis. Big Boss poderia ter sido uma xerox do Bond, do sedutor que flerta com todas, e se encaixaria perfeitamente nas zoeiras do universo MGS (sátira e humor auto-referencial são fortes na franquia), mas o Kojima preferiu dar um tom mais sério e melancólico ao seu protagonista. Naked Snake é introspectivo, meio bronco, sem jeito com as mulheres (e se excita mais com o fetiche por armas – “this is a tool for pros” – do que com a Afrodite ali se insinuando pra ele, é hilário que o controle até treme). Ele não sabe como lidar com as investidas da Eva e ela vai quebrando essa barreira emocional aos poucos, até ele ceder no final.

— Eva mantém sua autonomia;

Fica implícito que, além da atração física, acaba rolando um sentimento entre os dois (mais de afeição/admiração do que propriamente romântico), mas, ao contrário das personagens que se rendem ao ~poder do amor~, a Eva nunca perde o foco da missão e segue firme com seu objetivo inicial, que é roubar o microfilme com as informações do Philosopher’s Legacy e do Shagohod pro governo chinês. Ela seduz o Snake com este propósito e acontece uma noite de pegação no final, só que, quando ele acorda no dia seguinte, se encontra sozinho no quarto e percebe que ela foi embora sem dó, levando o prêmio. O coitado fica lá mofando com a maior cara de pastel. (Dá uma peninha, até.)

Mas o microfilme era falso e a Eva é expulsa da China. Mais tarde, durante a guerra do Vietnã, ela se reencontra com o Big Boss, os dois acabam se acertando e se juntam à organização do Major Zero. O legal é que, novamente, Eva não se deixa levar apenas pela atração que nutria pelo Snake, mas sim, escolhe segui-lo por acreditar na causa baseada na ideologia da The Boss, a grande mentora deles.

— Eva mantém sua importância;

Snake e Zero recrutam a Eva porque enxergam nela uma parceira à altura, e não por qualquer sentimento condescendente. Nos filmes, as femme fatales costumam ser descartadas quando cumprem a função de ferramenta narrativa, ou esquecidas após um tempo, a Eva se torna uma parceira fundamental na vida do BB até o fim. Quando ele é incinerado pelo Solid Snake (final de Metal Gear 2) e daí aprisionado em sono criogênico pelos Patriots (agora antagonistas), Eva continua sua luta e, fodasticamente, é ela quem o salva depois guiando o Raiden pra resgatar o corpo dele e consertando-o com partes do Liquid e do Solidus.

MGS4-Eva

Em 007, é raro uma personagem envelhecer com o Bond. Fora a maravilhosa M (Judi Dench) da era Pierce Brosnan/Daniel Craig, a única que durou foi a primeira Miss Moneypenny (cuja atriz foi a que mais repetiu seu papel nos filmes), a secretária que tinha uma relevância menor na narrativa (mas isso mudou em Skyfall, não conto mais pra evitar o spoiler). Em contrapartida, a Eva retorna em MGS4 numa das melhores inversões de tropes da série: com quase 80 anos, kicking some serious ass e salvando o dia. Pra mim, é uma prova do carinho que foi colocado na construção da personagem.

“Call me Eva.”

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See you, space cowboys

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PS: Essas foram apenas algumas impressões, ainda pretendo escrever um texto mais elaborado sobre as personagens femininas do universo MGS. <3

PPS: Em MGS4 a Eva tem SETENTA E OITO ANOS. Botox ou nanomachines?

PPPS: Como no post de Dishonored, este aqui também brotou de um comentário que eu tinha feito um tempão atrás na fanpage do GoW e resolvi trazer pro blog.

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Bebs
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3 Comentários em "Eva, uma Bond Girl invertida"
  1. Darth Gama
    29/05/2015

    Eva sem dúvidas é uma das personagens mais marcantes da saga, na minha opinião.

  2. paulohonda
    30/05/2015

    Ótima análise sobre desconstrução/reconstrução de personalidades de personagens dos games.Seu texto da nos mostra o quanto Kojima dá importância as figuras femininas de MGS.
    Que venha mais textos sobre MGS e seus personagens!

  3. Leonardo
    31/05/2015

    Se houve coisa que gostei na EVA (bolas, nunca soubemos o que aconteceu à verdadeira) é não ser uma Bond Girl. Mas o Kojima deixou-nos cair (nomeadamente ao fanboys que pedem mais e mais MGS e mais e mais acção e armas) e bem nesse conceito…Por exemplo, ao início, o Kojima mostra claramente EVA a falar através do rádio mala e ela claramente não disse a palavra passe (tais códigos eram tão importantes à época), mas no final já nem nos lembramos depois de tudo por que passámos (Snake e EVA) e levamos o soco no estômago com a EVA a deixar-nos pendurados enquanto vai à sua vida numa mota!).

    Infelizmente, MGS4 mostra-nos uma EVA que afinal de contas foi uma a Meryl do BB pois nada mais é do que uma tipa agarrrada àquilo que foi (não me refiro à sensualidade pois não acho um descalabro sexo na 3ª idade, antes pelo contrário, mas sim à vertente de espia e aos “bons velhos tempos” com o BB) e ao BB, o que piora à medida que se vem mais da loucura do BB. Quer dizer, o BB torna-se num doidivanas que procura, sem saber, sair da gaiola da “liberdade” e a EVA, como apaixonada que é e como até gostou da noite com o Snake nos anos 60, vai atrás do seu homem, mesmo que isso implique atirar-se às chamas.

    Explicitando o conceito pejorativo de Meryl…ela era um soldado que recebeu hipnoterapia para não interessar-se por homens mas isso claramente falha no final de MGS. Meryl, ao viver com Snake, passa pelo mesmo que Rose após Raiden lembrar-se do seu passado ao ver Snake a conversar com os seus huskies e não com ela e faz-se à vida. No entanto, em MGS4, ela continua a ser uma rookie que só sabe lutar devido ao SOP e que geme mal fica sem ele (levar uma bala deve doer, não deve!?) e casa-se com o oposto de um soldado: o borra-cuecas do Akiba, como se por vingança a Snake e a Campbell…ah sim, ela casa-se, apesar de em MGS dizer frente ao espelho que nunca foi igual às outras e em MGS4 dizer que os homens são todos uns porcos. Yup, pobre Akiba que vai ver a Meryl virar lésbica por efeitos tardios da hipnose.

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